a tese
Bloco do Central Meio com Pedro Doria, Flávia Tavares e o cientista político Creomar de Souza sobre a contradição entre o discurso de Lula (quer o filho investigado, quer o vazamento apurado) e a prática do governo de interferir na Polícia Federal, com a tese de fundo de que todo ocupante do poder tenta dobrar a regra do jogo a seu favor e que o que separa Lula de Bolsonaro é gradação de estilo, não natureza.
aprofundar
não
é análise política competente e bem argumentada, mas o conteúdo é conjuntural e não deixa nada aproveitável para o seu trabalho além do retrato do tribalismo cognitivo que Creomar descreve.
O que foi dito
- Pedro Doria lembra que a PF é órgão sob o Ministério da Justiça mas deveria ter independência de fato: o ministro não escolhe qual delegado investiga nem o que se investiga, e é da natureza do arranjo que polícias sejam independentes.
- Ele recupera o episódio em que Jair Bolsonaro pressionou Sergio Moro para nomear o superintendente da PF no Rio, com o objetivo de poupar Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas, e observa a ironia de Flávio ser hoje candidato à presidência.
- O argumento central de Doria é o descasamento entre o discurso petista de que o partido deixa o Estado agir em paz e a ação concreta: isso foi verdade no governo Dilma com José Eduardo Cardozo, não foi com Bolsonaro e não é com Lula, que no início do ano teve o Ministério da Justiça pedindo ao diretor-geral Andrei Rodrigues o afastamento do delegado que pediu a investigação de Lulinha.
- Ele sustenta que a diferença é de grau e de método, com Bolsonaro ostensivo e agressivo e Lula operando com mão mais leve, e que isso faz alguma diferença sem apagar a semelhança; e reconhece que o discurso importa, apontando a fórmula previsível do presidente traído que quer tudo apurado.
- Creomar de Souza entra pelo lado dos incentivos: Dilma e Cardozo deixaram a Lava-Jato correr porque se julgavam fora dela, e colheram impeachment e queda; Bolsonaro perdeu Moro ao constranger a PF, e anos depois reencontrou Moro no palanque de Flávio.
- A regra que ele extrai é a do morde e assopra: em público o político cobra investigação sobre o filho, o irmão ou a esposa; no privado assopra, porque o gesto público serve para mandar recado aos pares.
- Como ilustração do cálculo puro, narra a sequência Ciro Nogueira e banco Master: Flávio primeiro tratou Ciro como persona non grata e o deixou no meio da estrada com o caminhão vindo; quando o caminhão mudou de direção e atingiu o próprio Flávio, ele voltou a Ciro pedindo um vice mais viável que Alfredo Gaspar, e ouviu que não sairia vice dali.
- Creomar concede o passivo do PT com o tema (queda de governo, prisão de Lula, sangria de quadros históricos) e ao mesmo tempo trata a corrupção como dilema endêmico do sistema partidário brasileiro, não como marca de um campo.
- O diagnóstico final dele é sobre o público, não sobre os políticos: a sociedade entrou numa quadra em que tudo que o político de preferência faz é perdoável e tudo que o adversário faz é execrável, o que empobrece o debate e beneficia justamente os de sempre; acrescenta que político não é objeto de estima, é servidor público que se manda embora quando não resolve a vida de quem o elegeu.
- O bloco termina com uma montagem de falas de campanha e de comentário público, incluindo agressões pessoais aos dois candidatos, que serve de amostra do nível do debate que a mesa acabou de descrever.