a tese
Pedro Doria e Cora discutem o casamento, o sexo e a amizade com IA como três formas de usar a IA como companhia, e concluem que nada disso é novo (a solidão e a carência humanas são antigas), mas a IA funciona como catalisador que concentra e intensifica esses problemas em vez de resolvê-los.
aprofundar
talvez
porque o debate ético sobre IA como substituto de vínculo humano tem densidade e conexões teológicas (antropologia da carência, luto, idolatria de estátuas, Eclesiastes), mas o formato é conversa solta e improvisada, sem argumentação sistemática que justifique uma análise avulsa completa.
O que foi dito
- O programa parte do fato de que, nos Estados Unidos, deputados (a maioria republicanos) começam a legislar para proibir o casamento entre humanos e IAs, movidos por pessoas que já se declaram casadas com IAs.
- Pedro Doria distingue as IAs de companhia (sites baseados em personagens, como Character AI) das ferramentas de trabalho (ChatGPT, Claude), notando que as primeiras têm papel ativo no diálogo, fazem perguntas e criam surpresas, enquanto o ChatGPT dele só responde a estímulos e nunca o surpreendeu.
- Cora defende que o sexo virtual com IA se aproxima mais da prostituição do que da pornografia, porque a IA interage em vez de ser passivamente assistida, apoiando essa distinção numa longa digressão sobre pornografia (Anaïs Nin, cartas da Penthouse, Carlos Zéfiro, Gaspar Noé).
- Pedro relata ter sido o autor da primeira reportagem sobre a garota de programa Bruna Surfistinha, descoberta num site de resenhas com ranking em que ela era número um por oferecer companhia afetiva (cafuné, fazer papel de namoradinha) além do sexo, concluindo que o ser humano é fundamentalmente carente.
- Os dois argumentam que a carência e a necessidade de companhia têm fundamento biológico ligado à sobrevivência e são comuns a mamíferos e outros animais, ilustrando com peixes, o urubu Zico e cuidadores de aves silvestres.
- Sobre a legalidade, ambos acham que a pessoa deve ser livre para se sentir casada com uma IA, mas separam isso do documento legal do casamento (que pressupõe outro ser humano maior de idade) e apontam complicações materiais como herança e plano de saúde.
- Cora conta duas histórias que o angustiam: um engenheiro que carregou o GPT com anos de mensagens da namorada morta de câncer e apagou o sistema ao perceber que trocava o luto pela ilusão da presença, e o menino de 14 anos da Flórida que se apaixonou por uma personagem da Character AI (a Daenerys de Game of Thrones) e se suicidou convencido de que se reencontrariam num além.
- Cora resume seu receio afirmando que a IA é essencialmente uma calculadora que imita muito bem o ser humano, e que tratá-la como solução para a solidão pode ser, na verdade, um estímulo para que pessoas solitárias cavem um buraco maior.
- Pedro sustenta que o problema de fundo é a sociedade e o ser humano, não a tecnologia, citando serviços de aluguel de acompanhantes e amigos (rent a friend, comum no Japão) e a solidão aguda japonesa e europeia frente à cultura latina do encontro.
- A conclusão dos dois é que a IA apenas concentra num único ponto problemas antigos (Pigmalião, Pinóquio, estátuas feitas para companhia), citando o Eclesiastes (“nada de novo sob o sol”), e ambos encerram admitindo que saem mais tristes do programa por encararem a dor da solidão como falência humana.