a tese
No trecho final de uma entrevista do Meio, Pedro Doria e o cientista político Jairo Nicolau sustentam que a política identitária pesa menos na urna do que parece e que o realinhamento evangélico à direita, hoje medido em 68% dos votos para Flávio Bolsonaro no Datafolha, nasce do alinhamento em pautas de costumes, não de uma ética protestante do trabalho comprovada por dados.
aprofundar
sim
porque a conversa dá o dado eleitoral evangélico mais recente (68% para Flávio) e coloca duas questões diretamente teológicas para o Bruno, se a tese weberiana da ética protestante se aplica ao Brasil e se a fragmentação denominacional impede falar de um "campo evangélico" com teologia comum.
O que foi dito
- Jairo Nicolau abre dizendo que a política identitária tem menos força eleitoral do que aparenta para quem vive na universidade e nas redes, e observa que na Europa a maior perdedora para a nova direita foi a socialdemocracia, enquanto no Brasil os derrotados foram os liberais (PSDB, MDB, segmentos do PFL), a ponto de o velho centro ter desaparecido e sobrado só o “centrão”.
- Pedro Doria propõe a tese de que a socialdemocracia dependia da estrutura de fábrica (milhões no mesmo chão, mesmos horários, mesmas faixas salariais, organizáveis em sindicato) e que a economia de plataforma, ao descentralizar e desintermediar, dissolveu a liga que formava um partido socialdemocrata.
- Para Doria, a peculiaridade brasileira é o lulismo descrito por André Singer: desde 2006 Lula tem apelo junto a um eleitorado conservador extremamente pobre do Nordeste e do Norte, dependente de repasses do Estado e identificado pessoalmente com o retirante nordestino que deu certo, voto que nenhum partido socialdemocrata europeu conseguiria ter e que, supondo reeleição, se esgota em 2030 porque pertence a Lula e não à esquerda.
- Nicolau concorda em parte e situa a era socialdemocrata do PT até meados dos anos 90, antes da desindustrialização acelerada; a virada teria vindo com políticas de transferência de renda voltadas à baixa renda e baixa escolaridade, distintas das políticas universalistas de saúde e educação, que explicam as vitórias de 2010, 2022 e provavelmente a deste ano.
- Ele quantifica: nas pequenas cidades do Nordeste os candidatos do PT saem com 6 ou 7 milhões de votos de vantagem, diferença que apenas Bolsonaro, em 2018, conseguiu compensar no Sudeste; e nota que não conhece socialdemocracia que viva dos rincões e dos municípios menores.
- Doria descreve o jovem de periferia que virou motorista de aplicativo, fora do sindicato e querendo enriquecer, a quem a esquerda tradicional só ofereceria a alternativa entre “otário de motorista” e “otário de CLT”, já que ganhar dinheiro não é bandeira dela; Nicolau responde que a esquerda no poder ainda pode adiar esse acerto de contas, mas não fala a esse eleitorado com a eficiência da direita, e Doria acrescenta a repulsa petista ao empreendedorismo.
- A pergunta final de Doria é weberiana: com um quarto indo para um terço do país evangélico, renda e escolaridade em alta e o problema deixando de ser comer três vezes ao dia para virar pagar boleto, existiria uma ética protestante do trabalho reorganizando politicamente essa gente, mudança sociológica que nada teria a ver com aborto, banheiro ou pauta trans, e sim com o modo de pensar trabalho e renda.
- Nicolau chama isso de hipótese boa e suspende o juízo por falta de dados, lembra que historiadores modernos contestam Weber e cita a pesquisa nacional recente do ISER (grafia incerta) com 15.000 brasileiros sobre religião, ética do trabalho, armas e aborto, possivelmente a maior já feita no país sobre religião e valores.
- A objeção dele à transposição de Weber é a fragmentação: o campo evangélico brasileiro não tem lista de tópicos nem teologia em comum, na Baixada Fluminense há quarteirões com oito templos, muitos criados por pastor dissidente que levou 50 ou 60 pessoas, e ele cita o deputado estadual Antônio de Paula (grafia incerta), pastor da Assembleia de Deus de Madureira, para mostrar que igrejas do mesmo nome se dividem entre posições políticas distintas; Doria acrescenta que a diferença prática entre pentecostal e neopentecostal é zero, porque a pessoa troca de igreja pelo pastor e pela comunidade e segue se vendo como a mesma cristã, e que a pessoa mais evangélica que conhece se autodefine como “cristã”, não como evangélica.
- O achado do livro de Nicolau fecha a conversa: os evangélicos votavam majoritariamente na esquerda até 2014, a inflexão de 2018 se explica pelo alinhamento em valores, e no capítulo quatro ele mostra que são o grupo com maior percentual de conservadores em costumes, com correlação clara entre conservadorismo e voto na direita; Bolsonaro alinhou cerca de 70% deles em 2018, repetiu em 2022 e Flávio mantém o mesmo patamar, com 68% no primeiro turno segundo o Datafolha do dia anterior, e o bloco encerra com trechos de propaganda eleitoral e falas agressivas de campanha, incluindo uma que ofende Flávio Bolsonaro e Lula em termos pessoais.