Rodrigo Bibo, Gutierres Siqueira e Luís Henrique defendem que não há como escapar da sistematização da fé, e que a teologia sistemática nasce sempre de uma pergunta externa ao texto bíblico, imposta pelo momento histórico, filosófico e religioso do intérprete. Daí seu valor (dar identidade doutrinária a uma igreja) e seu limite (a Bíblia não responde a tudo o que se quer perguntar a ela).
talvez
porque a tese de que a pergunta sistemática é externa ao texto e datada historicamente dialoga direto com o modo como o Bruno lê doutrina a partir da exegese, mas o episódio é introdutório, gira em torno de história institucional da Assembleia de Deus e termina em resenha comercial, sem trabalho textual que sustente uma sessão própria.
O que foi dito
- Depois dos avisos de agenda (lançamento do livro “Igreja Sob Medida” em Joinville no dia 29 e seminário em Curitiba no dia 19 de setembro com Guilherme Nunes), Bibo abre com a observação de que a Assembleia de Deus demorou a produzir um credo, comparando com sua queixa de tempos de seminário luterano: os luteranos não produziam uma Bíblia de estudo própria e, sem isso, não conseguiam fixar doutrina no povo.
- Gutierres Siqueira contesta a premissa: a primeira teologia sistemática pentecostal é de Myer Pearlman, pastor da Assembleia de Deus norte-americana de origem judaica, escrita na década de 1930, cerca de vinte anos depois do avivamento da rua Azusa, bem antes do clássico de Stanley Horton (1994).
- Ele explica que a Assembleia de Deus dos Estados Unidos nasceu em 1916 como reação ao pentecostalismo unicista que crescia entre as igrejas independentes surgidas da Azusa, e que a declaração “Verdades Fundamentais” data desse mesmo momento, ou seja, os pentecostais só aceitaram estrutura de credo e denominação quando a controvérsia trinitária impôs a necessidade.
- Sobre o atraso brasileiro, Gutierres atribui o intervalo à fase sueca da denominação (Gunnar Vingren e Daniel Berg fundam a Missão da Fé Apostólica em 1911), de pietismo escandinavo desconfiado de seminários, com missionários intelectualizados como Samuel Nyström (hebraico, grego, inglês e português) que preferiam escolas bíblicas itinerantes de um mês; só com a influência norte-americana dos anos 1950 e 1960 chega a preocupação com seminário e confissão de fé, e a lógica da urgência missionária, comum a batistas e presbiterianos vindos ao Brasil, explica o déficit acadêmico evangélico até hoje.
- Ele critica a Declaração de Fé das Assembleias de Deus (2016), documento de mais de 200 páginas: acha detalhista demais e diz que fecha dogmaticamente assuntos que não deveriam ter sido fechados, embora não divirja da essência do documento do início do século XX.
- Luís Henrique define a relação entre as disciplinas pela metáfora da casa: a teologia bíblica fornece os tijolos (as afirmações espalhadas de Gênesis a Apocalipse, em literaturas variadas e sem ordenação lógica moderna) e a teologia sistemática é a arquitetura que os redistribui segundo uma lógica e uma circunstância, o que gera casas distintas no mesmo “bairro da cristandade”; ele distingue credos (sínteses ecumênicas, como o Niceno-Constantinopolitano, e decisões como o Concílio de Jerusalém) das sistemáticas, que ampliam essas sínteses em escolas com ênfases próprias, das escolas antioquena e alexandrina às medievais e às denominações protestantes.
- O argumento central de Gutierres: a pergunta pentecostal clássica “qual é a evidência do batismo no Espírito Santo?” não é uma pergunta do texto bíblico, e sim herdeira do avivalismo norte-americano, que já perguntava pela evidência da eleição entre os puritanos e pela evidência da santificação plena entre os metodistas, com o próprio vocabulário de “evidência” vindo do Iluminismo e sua exigência de prova; ele contrasta com perguntas que o texto de fato faz, como “que devo fazer para ser salvo?” em Atos.
- Luís Henrique acrescenta que sistemáticas reformadas traduzidas ao português costumam formular suas perguntas sob racionalismo exacerbado, tornando prolegômenos, pressuposições e discussões de inspiração e inerrância uma porta de entrada enfadonha para o iniciante; Bibo lembra que há perguntas que a Bíblia não quis responder (a queda de Satanás, cuja melhor resposta foi a de Calvino, dizer que a Escritura não fala), e que temas atuais como aborto, depressão e ansiedade exigem a sistemática dialogando com a psicologia, sem forçar o texto.
- Gutierres sustenta que a divisão entre teologia bíblica e sistemática é artificial, já que existe teologia bíblica reformada, arminiana e pentecostal, cada uma indo ao grego e à história da igreja para provar seu ponto, mas reconhece um ganho na teologia bíblica: ela é menos pretensiosa quanto a ter resposta para tudo; o grande tema da Escritura é a história da salvação, não dieta, cosmologia, riqueza ou segurança pública, e essa consciência gera humildade para reconhecer o saber de outras áreas, exemplificando com a tecnologia de RNA mensageiro nas vacinas.
- O bloco final é resenha de “Renovando a Teologia Cristã: sistemática para um cristianismo global”, de Amos Yong (Thomas Nelson, 448 páginas, capa dura, cerca de R$ 78 na Amazon), indicação do próprio Gutierres à editora: Yong é pastor ordenado pela Assembleia de Deus da Malásia e foi diretor de missiologia no Fuller, lê toda a sistemática a partir da escatologia (movimento que remonta a Moltmann, aplicado agora ao meio carismático), apresenta correntes globais em vez de opinar diretamente, insere comentários teológicos sobre pinturas para recuperar a imaginação como leitura narrativa e participativa, e propõe uma teologia “renovacionista”, isto é, o que o pentecostalismo tem a contribuir à sistemática mais ampla; Luís Henrique acrescenta que a obra é também missional e útil a quem atua em contexto transcultural.