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O filme sobre Temer | Pedro+Cora

a tese

Pedro Doria e Cora Rónai comentam "963 Dias", documentário de Bruno Barreto sobre Michel Temer, e defendem que Temer foi o operador institucional que profissionalizou a Câmara e a relação entre Executivo e Legislativo, não o golpista que a esquerda descreve nem o figurante que a direita ignora. Para eles o impeachment de Dilma foi um erro político, mas processo legal, e chamar Temer de golpista criminaliza a política.

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o conteúdo é bom como análise institucional brasileira (a tese de que a relação Executivo-Legislativo foi inventada e não constituída, e a referência a Pérez-Liñán, sustentam uma análise avulsa de política), mas metade do episódio é memória afetiva de jornalistas veteranos sem valor argumentativo, e nada aqui toca teologia ou pregação.

O que foi dito

  • Os dois foram juntos ao cinema às 10 da manhã (Cora Rónai, que se declara animal noturno e dorme às 4h, faz disso a piada de abertura) ver “963 Dias”, documentário de cerca de 1h40 de Bruno Barreto sobre Temer, que estreia em setembro na Band e depois entra no catálogo do Globoplay.
  • Doria enquadra o valor do filme na tese de que histórias precisam ser contadas antes de escaparem, e observa que o governo Temer só é lembrado como “governo golpista” pela esquerda ou como parêntese inexistente pela direita, já que ele era vice de Dilma e não tem simpatia de nenhum dos dois campos.
  • Ambos descrevem Temer como eminência parda, figura de bastidores com peso de protagonista e descrição de figurante, que ainda hoje mantém interlocução com PT, Centrão e bolsonaristas, e que, segundo Doria, atrapalhou o impeachment de Bolsonaro.
  • O argumento central de Doria é institucional: a Constituição de 1988 definiu direitos e estrutura do Estado, mas não como Executivo e Legislativo se relacionam. Isso foi improvisado em Sarney, Collor e Itamar, montado no governo Fernando Henrique pela dupla Sérgio Motta e Luís Eduardo Magalhães (relação pessoal, não institucional), e institucionalizado por Temer na presidência da Câmara no segundo mandato de FHC, com controle de votos deputado a deputado e o colégio de líderes definindo a pauta.
  • Luciana Temer, filha do ex-presidente, aparece com frequência no filme e é crítica do pai, mas a frase que ela repete, “Temer é o cara da institucionalidade”, organiza a leitura de Doria. Ambos especulam que, sem o impeachment, Temer teria permanecido eminência parda até hoje.
  • Sobre o estilo de Temer, Doria diz que o problema não é a mesóclise ou o vocabulário, e sim usar dez palavras onde bastariam três, o que dilui a mensagem. Cora conta ter entrevistado Petrônio Portela, ministro da Justiça no regime militar, e só ao transcrever a fita percebeu que ele não havia dito nada, e cita a leitura de Nelson Jobim no filme, segundo quem os gestos de mão de Temer comunicam ausência de atrito.
  • A conversa deriva para uma digressão longa sobre a velha habilidade conciliadora da política brasileira: Sarney tratando com cordialidade Millôr Fernandes e Chico Caruso, que o esculhambavam na imprensa (Millôr reproduzia trechos de “Marimbondos de Fogo” sem precisar comentar), e Juscelino Kubitschek abordando no Jóquei dois rapazes que o xingavam para perguntar por que não gostavam dele.
  • Doria sustenta que o impeachment é processo judicial no Senado, em que os senadores são os juízes, e que dizer “só é crime se eu acho que é crime” destrói a lógica do Estado democrático de direito, invocando a frase de Rui Barbosa de que o Supremo erra por último. Ele admite ter sido a favor do impeachment e hoje considerar que errou, enquanto Cora foi contra desde o início (votos têm consequências) e afirma que sem o impeachment o Brasil teria quebrado, mas não teria havido Bolsonaro e o PT teria virado partido comum.
  • Doria apoia a análise no cientista político argentino Aníbal Pérez-Liñán, de Notre Dame, que mostra em livro sobre impeachments na América Latina como o nó entre Executivo e Legislativo, historicamente desatado por intervenção militar, passou a ser resolvido pelo impeachment desde o caso Collor em 1992, pacificando Peru, Paraguai e outros vizinhos, e reconhece que no Brasil de 2016 o mecanismo deixou de pacificar e acirrou a polarização que levou a Bolsonaro e ao retorno de Lula.
  • O fecho pondera que fazer filme sobre Temer exige coragem porque não há claque nenhuma a favor (diferente do irmão de Bruno Barreto, Fábio Barreto, que dirigiu a cinebiografia “Lula, o Filho do Brasil”), e lembra que o governo Temer entregou muito sob ataque simultâneo do procurador-geral Rodrigo Janot e da greve dos caminhoneiros.

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