a tese
No Central Meio, Pedro Dória e o historiador do direito Christian Lynch leem a guerra aberta no STF (Moraes x Mendonça, no escândalo Vorcaro/Banco Master) como sintoma terminal da Nova República, e Dória propõe uma "revisão constitucional" ritualizada como saída sem golpe.
aprofundar
talvez
é a análise política mais completa do dia (123 min) e o quadro Weber/protestantismo/periferia evangélica toca sua área, mas o miolo é conjuntura do STF; vale como panorama, não como estudo.
O que foi dito
- Lynch descreve Alexandre de Moraes como personalidade “napoleônica” e “não republicana”, que projeta poder em todo campo e não vê abismo; distingue seu estilo de embate do de Gilmar Mendes (“centrão”), e teme sobretudo a contaminação do STF, “árbitro do regime”.
- Ambos leem André Mendonça pelo retrospecto (paralelo com Deltan Dallagnol e a Lava-Jato): identidade religiosa, cruzada anticorrupção que “acaba no bolsonarismo”, voto sobre 8 de janeiro que na prática nega a tentativa de golpe; Lynch o vê como infiltrado que desacredita a corte por dentro para reescrever a história e explicar a condenação de Bolsonaro como perseguição a um “homem de Deus”.
- Fatos do escândalo: Viviane Barci de Moraes (esposa de Moraes) recebeu mais de R$130 milhões de Daniel Vorcaro por contrato vago, além de cota em jatinho e cartões para os filhos; Flávio e Eduardo Bolsonaro receberam ao menos R$70 milhões do mesmo Vorcaro; Dória sustenta que Vorcaro “comprava” uma eventual presidência de Flávio e que o interesse dele é implodir o sistema.
- Dória diz que Lula “lavou as mãos” (cobrou investigação “doa a quem doer”) e acerta politicamente ao não abraçar Moraes, enquanto Davi Alcolumbre se posicionou ao lado de Moraes/Gilmar; ambos notam que o inquérito das fake news deveria ter sido encerrado em 2023 e virou abuso quando passou a mirar outro ministro (“guerra nuclear”).
- Núcleo histórico de Lynch: todos os regimes brasileiros (Primeira República, Vargas, 45-64, ditadura militar) duraram em ciclos e terminaram por espiral interna de disputa de poder irresolúvel; a Nova República faz 41 anos, mesma idade em que ruiu a Primeira, e só ela nasceu sem golpe (mérito de Tancredo Neves).
- Diagnóstico institucional: Executivo virou anão, Congresso e STF hipertrofiados; poder real e patrimonial (emendas) migrou para a Câmara, tanto que presidentes de partido, salvo PL e PT, nem se importam com a eleição presidencial; “Flávio na presidência não vai fazer nada porque presidente não tem mais poder”.
- Proposta de Dória: o próximo presidente (“de transição”) convoca um conselho de notáveis (juristas, economistas, sociólogos) que, com audiências públicas, redige a “mãe de todas as reformas constitucionais” sem tocar cláusulas pétreas, levada ao Congresso como PEC; Lynch acrescenta o mecanismo português de revisão constitucional decenal como caminho legal, mas prevê “o pior”.
- Sociologia eleitoral: Lynch e Dória mapeiam os 30% de classe média pobre de periferia urbana (evangélica, conservadora por medo de cair, sem representação real) e os 12% do agro (cosmopolitismo “Texas-Dubai-Pequim”), ambos desprezados pelo resto do país; discutem Weber, protestantismo e compatibilidade com estado de bem-estar; encerram com Rawls, Fukuyama e imaginação histórica como ferramenta política, mais o bloco cultural de Guilherme Vernek (Rock in Rio, Grupo Corpo, MASP).