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O Mundo da Literatura Bíblica - BTCast 665

a tese

BTCast 665 reúne Luís Henrique com dois convidados de formação em Letras, Felipe William (doutor em estudos literários, autor de livros infantis ilustrados) e Victoria Zalevski, para discutir "O Mundo da Literatura Bíblica", de Robert Alter, defendendo que ler a Bíblia como literatura não concorre com lê-la como palavra de Deus, e sim recupera a intenção estética dos autores que a leitura devocional fragmentada perde.

aprofundar

talvez

mais como pauta de leitura do que pelo episódio em si; a conversa é boa introdução ao Alter e reúne referências úteis (Jauss, Eco, Smith, Wilson), mas é conversa de divulgação sobre um livro, sem análise própria de texto bíblico, e dispersa em anedotas nos últimos quinze minutos.

O que foi dito

  • Abrem com a tese de que o ser humano é homo narrans antes de homo sapiens e de que a Bíblia, embora contenha poemas, genealogias e outros tipos textuais, funciona como macronarrativa dentro da qual o leitor situa a própria história; Victoria cita James K. A. Smith sobre a mulher pentecostal que dá testemunho lendo-se como Sara ou Rebeca.
  • Felipe traz o aparato da teoria literária: Merleau-Ponty sobre a linguagem como véu translúcido pelo qual vemos a realidade, a estética da recepção de Jauss e o “horizonte de expectativa”, e Umberto Eco sobre o texto admitir muitas leituras mas não qualquer leitura.
  • Luís Henrique formula o problema pastoral central: quando o leitor vai ao texto só atrás de “qual a verdade de Deus para mim hoje”, viola a natureza da Escritura, hábito solidificado pelas caixinhas de promessa e pela expectativa de tirar uma moral de cada texto na escola dominical.
  • Sustentam que a leitura literária é antídoto à fragmentação da crítica das fontes: Alter, no capítulo 3 e em “A Arte da Narrativa Bíblica”, critica as introduções que só catalogam qual versículo pertence à fonte P ou J, e propõe olhar a unidade do texto, e é por essa razão que conservadores tendem a gostar de um autor que não é cristão nem lê a Bíblia como norma de fé.
  • Exemplificam a intertextualidade interna: Rute apresentada a Boaz como estrangeira peregrina ecoando Abraão (o patriarca de Israel e a matriarca da monarquia davídica), a repetição verbal entre Amnon/Tamar e José, e a mesma expressão usada quando Jacó rouba a bênção de Esaú reaparecendo no reencontro como “minha oferta para você”.
  • Luís Henrique liga o setenta vezes sete de Jesus ao cântico de Lameque em Gênesis 4, lendo a fórmula da vingança completa redirecionada para o perdão completo, e observa que os autores do Novo Testamento operam com essa mentalidade de continuidade mesmo quando Alter fica no Antigo.
  • Sobre o profetismo, defendem que “profeta sem arte não é profeta”: o gesto simbólico dos profetas era elaborado esteticamente, e o equivalente hoje seria o rap ou o vídeo denúncia editado com cuidado (citam o caso Felca como exemplo de acusação factual lapidada artisticamente), não o ato profético brega de quebrar um vaso.
  • Felipe descreve o trabalho com livro infantil ilustrado como exercício de síntese (texto e imagem interdependentes, o máximo de conteúdo no mínimo de material) e cita a máxima de C. S. Lewis de que um livro infantil que só serve para crianças não é um bom livro infantil; relata adultos que choraram lendo para os filhos.
  • Victoria conta a própria trajetória: lia as narrativas do Antigo Testamento como rudimentares e repetitivas diante da Odisseia e da Eneida, e foi Alter que lhe mostrou que a repetição tem função literária além do suporte mnemônico da oralidade, com repetições de raízes hebraicas que marcam o tema, citando o ciclo do engano em Jacó (Esaú, Labão, os filhos com a túnica de José, Judá enganado por Tamar) e defendendo que a cena de Judá e Tamar não é intrusão de outra fonte, e sim parte do desenho.
  • Fecham com o argumento de Alter na abertura do livro, de que os estudiosos de literatura ignoram a influência hebraica na formação do imaginário ocidental (Davi e Golias, Moisés, a luta de Jacó com o anjo como arquétipo do encontro transformador que reaparece até em Luke Skywalker), e com a defesa de que Deus se revela também em beleza, tese que eles tomam de “Pregar como Poesia”, de Paul Scott Wilson, sobre a pregação apresentar verdade, bondade e beleza de Deus.

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