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Lula discursa na ONU: soberania e pressões dos EUA nas eleições | Central Meio

a tese

Programa completo do Central Meio (Pedro Doria, Yasmin Restum, Flávia Tavares e Magno) sobre o discurso de Lula na ONU a doze dias da eleição, com a tese central de Doria de que a viagem foi tecnicamente inútil do ponto de vista eleitoral: Lula fala de soberania e terras raras e cresce entre mulheres de renda alta, enquanto o voto que decide a eleição está na mulher de classe C da periferia urbana do Sudeste, que Flávio Bolsonaro corteja com carrinho de supermercado.

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e por causa da parte religiosa: a explicação de Doria para o voto evangélico como identidade de clã e não como cálculo moral, junto com o imaginário de Israel na periferia e com o movimento incipiente de católicos progressistas fazendo trabalho de base, é material direto para o Bruno pensar religião e política brasileira; o resto do programa é conjuntura eleitoral com prazo de validade curto.

O que foi dito

  • O trecho da mesa que já entrou no radar como vídeo separado (“Lula e Flávio Bolsonaro patinam nas mensagens aos eleitores”) é parte deste programa; aqui ele aparece no contexto completo, com a discussão do discurso e a seção de perguntas da audiência.
  • Flávia Tavares analisa o décimo discurso de Lula na Assembleia: dois públicos como sempre, mas desta vez o recado interno foi explícito no minuto final, citando a eleição de 4 de outubro e a interferência estrangeira; ela liga isso ao relatório da Abin vazado por Mônica Bergamo sobre risco de ingerência americana e à proximidade entre o grupo de Marco Rubio e o de Flávio Bolsonaro, e registra a leitura de Vera Magalhães de que o discurso é atestado de preocupação com a derrota.
  • Magno acrescenta que a soberania virou um ativo político inesperado para Lula, presenteado pela conduta de Trump e pela atuação de Eduardo Bolsonaro, e que o palco da ONU serve à diferenciação de estatura entre Lula e Flávio.
  • Doria abre a análise dura com a Quaest: 8% de indecisos contra 5% no mesmo período de 2022, e os 3% de diferença são gente que votou em Lula em 2022, segue rejeitando Bolsonaro e hoje diz não se sentir representada pelo governo; se ficarem em casa, quem ganha é Flávio.
  • Dados de campanha digital que ele mesmo levantou no repositório obrigatório do TSE: Lula gastou 6 milhões de reais em anúncios na Meta nos últimos 90 dias contra 700 mil de Flávio, e a segmentação da campanha de Lula mira exatamente mulher, classe C, periferia urbana e Sudeste, prova de que há gente competente lendo pesquisa lá dentro, ainda que o conteúdo do discurso não acompanhe.
  • Observação incômoda que ele repete: Flávio Bolsonaro fala mais de feminicídio na propaganda de rádio e TV do que Lula, e a propaganda dele é preço de biscoito e iogurte do ponto de vista de uma mãe.
  • A passagem mais densa sobre religião: Doria argumenta que Israel tem um imaginário próprio entre evangélicos de periferia, lembra que o bispo Edir Macedo se veste como um rabino veterotestamentário (figura que nem existia no Antigo Testamento), remete ao livro de Juízes, e conclui que falar mal de Israel na ONU e se encontrar com Zohran Mamdani e Bernie Sanders não rendeu voto nenhum na periferia urbana e pode ter dado motivo para essa eleitora ficar em casa; a reunião com Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Lavigne, Tony Bellotto e Malu Mader tampouco rendeu.
  • Sobre a pergunta da audiência de como um religioso vota em Bolsonaro, Doria responde com uma tese de identidade: o Ocidente teria abandonado o critério iluminista que nasceu das guerras religiosas entre católicos e protestantes, e voltado à lógica de clã; os evangélicos não acham que os Bolsonaro sejam santos, acham que Lula é contra eles, e quem se opõe a Lula é a favor deles; ele nota que só os evangélicos são tratados como categoria (“os evangélicos”), nunca os católicos, e atribui a tribalização a todos os campos, não só à esquerda. Magno completa com o pensar rápido de Kahneman: a decisão vem primeiro, a justificativa racional depois.
  • Flávia revela apuração sobre a máquina da campanha: divisão de poder entre o grupo da primeira-dama Janja com Ricardo Stuckert e o grupo de Sidônio Palmeira, cria de João Santana, e equipes inteiras de redes sociais devolvidas às bases por falta de autonomia; ela avalia que o mensageiro não faz milagre se a mensagem não está calibrada, e conta que a campanha passou a estudar levar Lula ao debate da Globo, movimento arriscado que só se explica pelo aperto.
  • Sobre as bets, Magno reconstrói a história (Temer legalizou, a regulamentação travou no governo Bolsonaro por pressão da bancada evangélica, a MP de Lula regulamentava só aposta esportiva, o Congresso incluiu cassino online e baixou a alíquota de 18% para 12%) e informa que o anúncio previsto para quinta-feira miraria o jogo do tigrinho; argumenta que as bets são o único tema capaz de penetrar no eleitorado de direita, porque a direita evangélica não se sente confortável com elas, lembrando que Zema fazia campanha com “Chega de Bets” na camiseta.
  • Flávia explica por que a possibilidade de decisão no primeiro turno existe segundo o Instituto Ideia, parceiro da pesquisa do Meio: o que Maurício Moura chama de “antipetismo de chegada”, o voto útil antecipado para derrotar Lula, com a diferença hoje em torno de cinco pontos; do outro lado, a aposta petista é a rejeição a Flávio, com o slogan “o pior dos Bolsonaros” e a rede de amizades dele no Rio.
  • O programa fecha com o retrato sociológico da classe C, que é 49% do Brasil (cerca de um terço quando restrito à periferia urbana): trabalha muitas horas por cerca de 4 a 5 mil reais mensais, não recebe os programas voltados à classe D nem os benefícios que percebe irem para cima, depende de serviço público precário, teme a violência, e é tratada com desprezo pela esquerda universitária como “pobre de direita”; Magno acrescenta que as aspirações desse grupo são esperadas de quem passou a comer, estudar e se informar, e que a política precisa ouvi-las sem que isso vire adesão golpista.
  • Doria ainda defende que Lula devia mesmo ir à ONU, explicando a tradição brasileira de abrir a Assembleia, herdada de Oswaldo Aranha e do fato de o Brasil ser o país mais importante do continente menos importante, e argumenta que o multilateralismo perde credibilidade na boca de Lula porque ele tem lado declarado no eixo Estados Unidos e China, leitura que atribui a Celso Amorim e ao PT.

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