Flávia Tavares recebe a economista Débora Bizarria e a cientista política Ana Carolina Evangelista, do ISER, para cruzar quatro assuntos a menos de duas semanas do primeiro turno, e o eixo é a maior pesquisa já feita no Brasil sobre religião (ISER e Quest, 15 mil entrevistas), que mostra a base religiosa divergindo das lideranças que a representam no Congresso.
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este é o item mais valioso da fila. A pesquisa ISER/Quest é a melhor base de dados já produzida sobre religião no Brasil, os microdados serão liberados após as eleições, e três achados tocam diretamente o que ele pensa sobre igreja e política: a base rejeitando a política eleitoral no púlpito sem mudar de voto, o antipetismo como marcador identitário e a cultura bíblica que atravessa os sem religião.
O que foi dito
- O dado que abre o programa: 90% das pessoas são contrárias às bets, sem variação por identidade religiosa, e o mesmo descolamento entre base e bancada aparece em Bolsa Família, fim da escala 6 por 1 e demarcação de terras indígenas (alta concordância) e em redução da maioridade penal e facilitação da posse de armas (alta discordância).
- Recuperam a história da regulamentação: aprovada no governo Temer, travada no governo Bolsonaro por pressão da bancada religiosa liderada por Marco Feliciano, e retomada no governo Lula com um texto que regulava só apostas esportivas, até o Congresso acrescentar os cassinos online, com veto presidencial derrubado.
- Débora Bizarria defende regular em vez de proibir, com três argumentos: proibição impede medir e tratar externalidades, a fricção é o que falta no celular (daí discussões no Banco Central sobre avisos do banco antes da transferência), e o cigarro mostra que regulação bem feita muda norma social. Cita a campanha “cristãos contra bets”, lançada na véspera por Justiça Pública, Aliança Evangélica e outras, que propõe fricção e não proibição, e reconhece que o lobby das bets é forte demais para uma proibição passar.
- Flávia Tavares contrapõe o depoimento de um jovem viciado no jogo do tigrinho, para quem a salvação foi justamente a regulamentação (o site oficial de autorrestrição, que ele renova até hoje), e registra que a Atlas/Bloomberg mediu 75% de brasileiros favoráveis à proibição total.
- Sobre o efeito eleitoral, Ana Carolina Evangelista sustenta que o desafio de Lula é mudar a conversa: enquanto a pauta única das últimas três semanas é corrupção e crise do STF, ele não mostra impacto palpável na vida das pessoas, e nas pesquisas qualitativas o que aparece é ausência de perspectiva de futuro, não ignorância sobre emprego e preços.
- O achado central da pesquisa sobre púlpito e voto: entre 83% e 90% dos fiéis são contrários à presença de política eleitoral nos espaços religiosos, cansaço medido há dez anos e crescente, mas isso não significa mudança de voto, porque a mesma pessoa segue achando que determinado candidato entrega valores cristãos. Débora Bizarria acrescenta que as maiores denominações (Congregação Cristã no Brasil, Igreja Deus é Amor) proíbem política eleitoral por regra, e recorre ao vídeo do pastor dela, Victor Fontana, que classifica quatro formas de tratar voto no púlpito, incluindo a dissimulada (descrever um perfil que só cabe num candidato).
- Sobre os influenciadores religiosos, o dado desmonta o senso comum: 80% dos brasileiros não seguem nenhuma liderança religiosa nas redes, e entre os 20% que seguem, quatro dos cinco nomes mais citados são católicos da Renovação Carismática, o que contraria o foco quase exclusivo da análise política no campo evangélico.
- Discutem o vídeo de Fábio Porchat para o Calma Urgente, que liga Flávio Bolsonaro, Nicolas Ferreira, Daniel Vorcaro e o pastor Fabiano Zettel (grafia incerta), da Lagoinha, já com mais de 2 milhões de visualizações. Evangelista lembra que corrupção já derrubou bancada evangélica uma vez, no escândalo dos sanguessugas, mas pondera que ali os pastores não são candidatos, e Bizarria observa que o primeiro comentário sob qualquer corte é “e o PT da Bahia?”, limitando o alcance de material identificado à esquerda.
- Explicam por que o escândalo não move o eleitor religioso: o antipetismo de chegada, que na pesquisa triplica no segmento evangélico em relação à média nacional, virou marcador de identidade, e a pergunta prática que sobra é “qual é o pecado tolerável”, com a associação entre Lula e o STF ajudando a fechar a conta. Na lista de maiores problemas do país aparecem segurança, corrupção, saúde e economia, nessa ordem.
- O bloco final traz o retrato religioso do país: 98% dos brasileiros dizem ter fé e acreditar em Deus, os sem religião são 14% (dos quais 91% têm fé e 15% frequentam alguma religião), 23% já mudaram de religião, o catolicismo deixou de ser doador universal e o próprio campo evangélico já perde fiéis para sem religião e para religiões afro-brasileiras, sobretudo entre jovens (apenas quatro em dez de 16 a 34 anos se dizem católicos). Além disso, 73% têm a Bíblia como referência de ensinamento de vida, mais de 50% mesmo entre os sem religião, 67% consomem música gospel, 5% se declaram apenas “cristãos” (e 70% desses frequentam igreja evangélica), e 30% dos evangélicos e 30% dos afro-religiosos participam de assistência social pela comunidade. O questionário tinha 180 perguntas e só chegava à identidade religiosa na de número 107, para não condicionar as respostas anteriores.