a tese
Dois comentaristas do Meio divergem sobre o que significa o manifesto pró-democracia da CNBB reaparecer a duas semanas da eleição: um sustenta que é a agenda republicana de sempre da igreja, o outro aponta um elemento novo, a soberania nacional, que funciona como endereçamento político claro.
aprofundar
talvez
porque o segmento é curto, mas a distinção entre envolvimento político hierarquizado (católico) e descentralizado (evangélico), com dado de pesquisa do ISER por trás, é material direto para pensar a relação entre púlpito e voto no Brasil.
O que foi dito
- A primeira comentarista (Flávia Tavares, pela grafia do canal) retoma o relato da pesquisadora Carol Evangelista, do ISER, para explicar a diferença estrutural: o campo evangélico é descentralizado e o pastor se envolve com autonomia, enquanto o catolicismo é hierarquizado e a CNBB é a entidade que resume as diretrizes, de modo que o envolvimento católico na política é indireto.
- Lembra que parte do catolicismo brasileiro tem afinidade histórica com o petismo, por nascer do mesmo berço (pastorais, teologia da libertação, laços com dissidentes durante a ditadura) e que, até a virada recente, a bancada religiosa no Congresso era majoritariamente católica, não evangélica.
- Sustenta que o manifesto é de janeiro, anterior ao período eleitoral, alinhado com a campanha da fraternidade e com a agenda de justiça social, e que pede voto de consciência sem citar candidatos, logo não é adesão à campanha, ainda que a militância o leia assim.
- O comentarista chamado de PH discorda em dois pontos. Primeiro, os cortes de bispos que circulam trazem um tema que não pertence ao discurso tradicional da CNBB: a soberania nacional, e quem politizou esse tema foi Lula, enquanto Flávio Bolsonaro defende explicitamente entrar no arco de influência dos Estados Unidos, o que torna o endereço evidente.
- Segundo, não é só a esquerda que lê o gesto como endosso a Lula: a direita também o lê assim e o repercute como “bispos comunistas pedindo voto”, de modo que o efeito nasce das duas leituras somadas mais a entrada do tema da soberania.
- Ambos concordam que o efeito eleitoral, se houver, será menor que o evangélico, porque a preferência evangélica está muito mais cristalizada e o campo, muito melhor organizado.
- Registram a exceção que confirma a regra, o pastor e deputado Henrique Vieira, do PSOL, e observam que deputados ligados à Igreja Católica costumam votar com a bancada evangélica em pautas de costumes.
- A primeira comentarista fecha a divergência reconhecendo o efeito descrito pelo colega, mas insistindo na gênese: em janeiro a conversa sobre soberania estava no auge, e o documento ganha tração agora por proximidade da eleição, não por ter sido feito para ela.
- O bloco de assinatura traz os dados da pesquisa própria do Meio: nenhuma eleição presidencial desde 1989 despertou tão pouco interesse, e 42% dos brasileiros veem os grupos de Lula e Flávio Bolsonaro como igualmente corruptos.