a tese
Pedro Doria sustenta, conversando com Yasmin Restum, que a eleição se decide numa eleitora específica (mulher de 25 a 50 anos, classe C, periférica, conservadora, com filhos em idade escolar) que não vota em Bolsonaro por causa da pandemia e das armas, mas abandonou Lula porque o governo passou quatro anos sem entendê-la.
aprofundar
sim
a parte sobre a eleitora religiosa, a leitura bíblica de Israel e o custo eleitoral do discurso da esquerda é sociologia da religião aplicada em tempo real, e conversa direto com o que você observa na sua própria congregação.
O que foi dito
- Avalia que a campanha de Flávio Bolsonaro é amadora na produção, mas entendeu antes do PT com quem precisava falar, enquanto Lula gastou o primeiro mês em soberania e terras raras, tema que só fala ao eleitor que ele já tinha.
- Observa que Flávio não está melhor que o pai estava em 2022: quem perdeu voto foi Lula, e os indecisos a mais são majoritariamente mulheres que votaram nele e saíram.
- Explica a rejeição a Bolsonaro por dois motivos concretos: a pandemia, porque essa eleitora depende praticamente do estado para saúde e educação dos filhos, e as armas, porque ela associa arma em casa a feminicídio e arma na rua a risco para os filhos.
- Diz que essa mulher também sente que a esquerda não gosta dela, e que tem razão, porque “a esquerda não gosta de pobre de direita” e passou quatro anos sem se esforçar para entender quem ela é.
- Aponta o discurso sobre Israel como custo eleitoral: a esquerda transforma o governo Netanyahu no país Israel, e para a eleitora religiosa, sobretudo evangélica, a presença judaica na terra tem sentido bíblico, de modo que o discurso soa como afronta a valores.
- Diz que o governo não entendeu o espírito da classe C, que ele descreve como nova burguesia: gostam da pauta do fim da escala 6 por 1, por senso de justiça, mas não querem ser enquadrados na CLT, querem autonomia no trabalho de aplicativo e serviços.
- Trata a taxa das blusinhas como desastre político por atingir duas coisas ao mesmo tempo, o consumo de símbolos de status e a revenda de produtos chineses por WhatsApp e marketplace, que é renda secundária relevante dessas mulheres.
- Critica a lógica econômica por trás, de desoneração para indústria automobilística e linha branca gerando emprego de operário à custa do endividamento da classe média, com crescimento aparente de PIB.
- Sobre o voto evangélico que foi para Lula em 2022 e voltou, atribui a perda à crítica a Israel, ao discurso de que crente é manipulado por pastor e a gestos percebidos como insinceros, como Janja cantando gospel, em contraste com Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira, criados dentro da linguagem evangélica.
- Perguntado sobre o que teme, responde que teme o derretimento institucional: considera Flávio o pior candidato posto não só pela herança do pai, mas porque governaria nas mãos do centrão, com Davi Alcolumbre, Arthur Lira, Valdemar Costa Neto e Ciro Nogueira enterrados no caso Master; se o caso virar pizza, reforça a ideia de que a democracia não pune quem tem poder, e isso, na história brasileira, desemboca em ruptura por volta de 2030.
- Declara-se liberal democrata, diz que o governo Lula foi medíocre e defende que o papel do jornalista é informar o eleitor, não ajudar campanha, embora saiba que campanhas de Lula e de Caiado já usam trechos suas análises em peças.
- Sobre o filme “Dark Horse”, reafirma o ponto da análise anterior: mesmo no cenário pessimista apresentado pelos produtores, o filme precisaria vender como o maior sucesso da história do cinema brasileiro e ainda assim não devolveria o aporte, logo Daniel Vorcaro não estava comprando um investimento, e cabe ao eleitor imaginar o que se compra ao dar dinheiro a um senador que pode ser presidente.