a tese
Paul Ens (Paulogia) disseca o teaser de bastidores de "A Ressurreição do Cristo", de Mel Gibson, plano a plano, e argumenta que o filme será fan fiction devocional: o critério declarado do diretor não é o historicamente verificável, mas o concebível, o que já produziu em "Coração Valente" uma obra quase sem contato com a história.
aprofundar
talvez
o filme é cultura pop, mas o vídeo reúne bem três temas que valem para ti: o estado real da evidência sobre o martírio dos apóstolos (McDowell), o uso das visões de Emmerich como fonte quase canônica e a teologia da descida ao Hades que vai chegar às telas.
O que foi dito
- Recapitula o contexto: “A Paixão de Cristo” (2004) custou 30 milhões e faturou mais de 600, sendo por vinte anos a maior bilheteria de filme com classificação restrita; a sequência custará 200 milhões, dividida em duas partes, agora espaçadas entre 2027 e 2028.
- Gibson conta que o roteiro levou de seis a dez anos, escrito com Randall Wallace, o irmão Christopher e um quarto autor, e vai da queda dos anjos até a morte do último apóstolo, em narrativa não linear e com passagem pelo inferno e pelo Sheol.
- O filme será em inglês, não em aramaico e latim, porque, segundo Gibson, a ressurreição é conceito complexo demais para exigir legendas; e Jim Caviezel foi substituído pelo finlandês Jaakko Ohtonen (grafia incerta), por custo de rejuvenescimento digital.
- Paulogia usa “Coração Valente” como precedente: William Wallace era nobre instruído e falava latim e francês, a pintura azul e o kilt são séculos posteriores, a ponte da batalha de Stirling sumiu do filme, e o direito de pernada que move o enredo nunca existiu em lugar algum.
- Contra a afirmação de Gibson de que “ninguém morre por uma mentira”, opõe a formulação correta (ninguém morre por algo que sabe ser mentira) e a pesquisa de Sean McDowell, que coloca só Pedro no primeiro escalão de evidência de martírio e considera provável que ao menos três dos doze tenham morrido de causas naturais.
- Corrige a afirmação de que uma dúzia de fontes hostis confirmam a ressurreição: Tácito registra a execução, Plínio registra o culto, Luciano zomba dos seguidores, e o Testimonium Flavianum é justamente o trecho mais disputado de Josefo, provavelmente alterado ou reportando o que os discípulos alegavam.
- Aponta dois deslizes de vocabulário de Gibson: tratar a Septuaginta como fonte distinta do Antigo Testamento, quando é tradução grega do mesmo texto, e entender “sinóticos” como “incompletos”, quando significa que Mateus, Marcos e Lucas podem ser vistos em paralelo.
- Identifica a fonte devocional central: as visões de Ana Catarina Emmerich, registradas por Clemens Brentano em “A Dolorosa Paixão”, que Gibson já chamou de livro em que o primeiro filme se baseia, e também Maria Valtorta; entram ainda o Livro de Enoque, o Evangelho de Pedro (a personagem Petrônio sugere a cena dos guardas vendo Jesus sair do túmulo com a cruz que fala) e o Evangelho de Nicodemos.
- Mapeia os cenários e as pistas visuais: Cinecittà e sets perto de Roma, Damasco, pedaços do Egito, o incêndio de Roma em 64 com a perseguição neroniana, a decapitação de Paulo, a morte de André amarrado na cruz em X, e a inserção de Saulo como melhor amigo de Estêvão, detalhe que Atos 6 a 8 não autoriza.
- Nota o material iconográfico citado: Giotto, Cranach, Van Eyck, o Juízo Final da cúpula de Florença, o “Pandemônio” de John Martin a partir de Milton, e o Jesus de vestes douradas da anastasis oriental, que representa a descida ao Hades, cena ausente dos evangelhos canônicos e sustentada por 1 Pedro 3:19, Efésios 4:9 e o Credo, mais o “inferno dos justos” que Gibson promete e que, ele observa, não vai agradar aos evangélicos.
- Menciona que a cena do batismo mostra João derramando água sobre Jesus, e antecipa a briga entre aspersão e imersão, com o apelo evangélico ao sentido de baptizo e ao “saindo da água”.
- Encerra com a própria posição: como ex-cristão que estuda as fontes da ressurreição, diz que topa toda a fan fiction dos mil primeiros anos de cristianismo (a cruz falante, Pedro contra Simão Mago, Jesus menino animando pardais de barro) desde que ninguém confunda aquilo com história, porque os evangelhos já foram escritos décadas depois por gente que não conheceu Jesus e com finalidade teológica.