a tese
O arvro argumenta que a disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida não é fake news nem ameaça legislativa iminente, e sim uma batalha no campo simbólico, em que a santa funciona como anteparo cultural contra o que ele chama de "evangelistão" machista, e por isso mereceria defesa até de quem não tem fé nela.
aprofundar
talvez
a leitura do conflito como disputa de campo simbólico e o uso de Ivone Gebara são teologicamente carregados e discutíveis (a generalização patriarcado igual a castigo é sociologia de brocha grossa), mas o material sobre Von Helder, o PL de 2007 e os ataques a imagens é um bom dossiê para pensar o anticatolicismo evangélico brasileiro.
O que foi dito
- Abre com áudio vazado do senador José Medeiros (PL), que descreve o próprio eleitorado como quem “ora para alienígena e bebe detergente” e admite atacar Alexandre de Moraes sob encomenda, para situar o clima de manipulação religiosa da campanha.
- Recusa os dois extremos: não é verdade que Nossa Senhora deixaria de ser padroeira no dia seguinte a uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, e o projeto de lei citado é de dezembro de 2007, arquivado em agosto de 2008; mas também é falso que não exista movimento contra a padroeira.
- Mostra reportagens de imagens sacras destruídas a marteladas em igrejas do Paraná e de invasão em Osasco, e cortes de pregadores tratando a imagem como “porta aberta” e “ponto de contato com o inferno”.
- Registra que já responde a processos de Carlos Bolsonaro e do MBL e espera um terceiro por causa deste vídeo.
- Reconta o episódio de 12 de outubro de 1995, quando o bispo Sérgio Von Helder chutou e socou uma imagem da santa no programa da Record, e descreve o impacto que aquilo teve nele, criança de formação apenas vagamente católica.
- Faz a ressalva jornalística de que a cobertura da Globo à época era parte da guerra da emissora com a Record e explorou o caso de modo sensacionalista, sem que isso torne o gesto menos grave.
- Compara os números: em 1995 os evangélicos seriam 10 a 15% da população (sem censo desde 1991), hoje cerca de 30%, e diz não ser bom para o país que essa parcela seja ensinada a chutar o símbolo do amor materno.
- Reconta a origem da devoção em 1717, com os pescadores de Guaratinguetá que puxavam a rede vazia diante da visita do conde de Assumar e encontraram primeiro o corpo e depois a cabeça da imagem, seguidos da pesca abundante; atribui a proclamação de 1930 ao papa Pio X, quando foi Pio XI.
- Sustenta que negar essa história é negar a desigualdade e a exploração da história colonial brasileira, e por isso a defesa da padroeira seria questão de soberania.
- Apresenta como padrão de história das religiões que tradições mais patriarcais tendem ao castigo e tradições que aceitam mulheres na hierarquia tendem ao acolhimento, apoiando-se em Ivone Gebara, e conclui com a tese de que o campo simbólico precede a cultura, que precede a política, razão pela qual o sagrado feminino da santa estaria barrando o projeto teocrático que ele descreve.