Conversa ao vivo mediada por Justin Brierley na All Souls, em Londres, entre o historiador Tom Holland e o biblista Peter J. Williams, da Tyndale House. Os dois convergem em que os evangelhos são fontes historicamente sérias e que a figura de Jesus é extraordinária demais para ter sido inventada, e divergem sobre as narrativas de nascimento e sobre o que a história pode dizer da ressurreição.
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é a peça mais densa da varredura em estudos do Novo Testamento e serve direto ao Bruno: o problema do censo de Quirino tratado sem apologética defensiva, o argumento de Williams sobre padrões de fala e a identificação de Jesus com o Deus único de Isaías em Filipenses 2, e a honestidade de Holland ao expor o limite do método histórico diante da ressurreição. Rende sessão avulsa, e a objeção de que a harmonização é motivada pelo desejo merece resposta cuidadosa.
O que foi dito
- Holland conta que o interesse veio por caminho indireto: ao escrever sobre as origens do Islã, descobriu que a suposta riqueza documental sobre Maomé é ilusória, já que as biografias canônicas são de quase duzentos anos depois, e ao escrever “Dominion” percebeu o quanto Paulo escreve perto da vida e morte de Jesus.
- Williams conta a própria trajetória, formação em grego, latim, hebraico e aramaico visando tradução bíblica, doutorado e pós-doutorado em Antigo Testamento, e a passagem para o Novo Testamento por contingência de emprego em Aberdeen.
- Holland relativiza o argumento da escassez de fontes: Jesus é um entre muitos taumaturgos e pregadores do império, e ainda assim é mencionado por Plínio, o Jovem, Tácito, possivelmente Suetônio e possivelmente Josefo, o que é considerável para alguém crucificado num canto obscuro. Traz como paralelo o gaulês Mariccus, relatado por Tácito, que se dizia deus, foi lançado às feras, não foi devorado, e acabou executado em silêncio, para mostrar que o tipo de tensão que produz o caso de Jesus não é exclusivo da Judeia.
- Williams destaca em Tácito a ligação da morte de Cristo à Judeia no tempo de Pôncio Pilatos (com o título de Pilatos errado, detalhe menor) e, em Plínio, a descrição de cristãos cantando a Cristo “como a um deus” e recusando-se a cultuar o imperador e os deuses romanos, o que indica monoteísmo judaico preservado com Cristo identificado como esse Deus, cerca de oitenta anos após o início do movimento.
- Sobre o Testimonium Flavianum, Williams cita o estudo recente de Tom Schmidt, publicado em acesso aberto pela Oxford University Press, que argumenta pelos traços estilísticos josefinos ao longo de toda a passagem, e diz achá-lo em alguma medida persuasivo, ainda com pouco tempo de recepção crítica.
- Sobre o gênero, ambos aceitam a classificação dos evangelhos como biografias antigas (Plutarco, Cornélio Nepos, Suetônio), mas Holland aponta uma diferença que considera sem paralelo: a monofocalização em Jesus, já que nos evangelhos as pessoas praticamente não existem exceto quando falam com ele, com a única exceção parcial de João Batista.
- Williams sustenta a confiabilidade em dois níveis: familiaridade cultural macro (geografia, nomes, ofícios, onde ficam os coletores de imposto, a fragmentação política entre áreas romanas e reis clientes) e granularidade nos ditos de Jesus, com padrões de fala recorrentes entre evangelhos independentes que apontam para uma só mente criativa, mais o uso de “filho do homem” que só ele emprega para si, enquanto os personagens precisam acrescentar algo ao nome Jesus, sexto mais comum da época.
- Holland apresenta suas objeções às narrativas de nascimento: Herodes morre por volta de 4 a.C. e o censo de Quirino é de 6 d.C., a Galileia de Herodes Antipas não era tributada por Roma, não há evidência de recenseamento universal nem de obrigação de retornar à terra dos antepassados, e o massacre dos inocentes não aparece em Josefo.
- Sua explicação é literária e teológica, não de fraude: exatidão documental não era o objetivo de Mateus e Lucas, que buscam demonstrar quem Jesus é, e a narrativa de Lucas funciona como contraponto deliberado ao culto de Augusto, inclusive porque há um suposto massacre de inocentes na vida de Augusto em Suetônio. Suspeita que Lucas tenha lido Josefo, dada a associação entre o censo de Quirino e a revolta que reaparece em Atos.
- Williams responde em três frentes: Lucas declara no prólogo ter pesquisado com cuidado e escreve para leitores que conheciam a tributação romana por experiência própria, Lucas 2:2 diz que esse censo foi o “primeiro”, o que aponta para algo mais complicado do que se supõe, e Mateus 2 preserva um detalhe fino, o retorno interrompido pela notícia de que Arquelau governava, que reflete a incerteza real após as sucessivas mudanças de testamento de Herodes. Reconhece que este é o maior problema histórico do Novo Testamento, e lembra que de Theodor Mommsen à professora suíça Sabine Huebner houve tentativas de solução.
- Holland contrapõe com franqueza que as harmonizações lhe parecem motivadas pelo desejo de que Lucas esteja certo, e Williams concede o ponto de método, dizendo preferir tratar Mateus e Lucas como fontes ao lado de Josefo e conviver com itens isolados improváveis sem precisar abraçar uma solução.
- O argumento mais forte de Holland é o inverso do ceticismo: pela navalha de Occam, é improvável que quatro autores, nem todos grandes artistas literários, tenham inventado ditos, parábolas e o arco da paixão tão extraordinários, e negar isso apenas empurra o problema adiante. Ecos do Sermão do Monte já aparecem em Paulo, anterior aos evangelhos.
- Williams enumera os ditos sem precedente conhecido, amar os inimigos, dar a outra face, a regra de ouro, quem vive pela espada morre pela espada, a verdade vos libertará, e observa que se distribuem por evangelhos diferentes. Acrescenta as coincidências que a retroprojeção não explica bem, a morte perto de Jerusalém na véspera da Páscoa, atestada também no Talmude, o nome ligado a salvar, e a tipologia da árvore do Gênesis retomada na cruz, que Paulo explora com entusiasmo de quem acaba de descobrir.
- Sobre a ressurreição, Holland afirma que a evidência não é conclusiva por desenho, tanto que Paulo fala de fé e a narrativa de Tomé encena a dúvida como possibilidade legítima. Diz que os primeiros seguidores claramente acreditaram ter visto algo extraordinário, e que duvidar disso torna sem sentido o surgimento do cristianismo, mas recusa a inferência para a divindade, lembrando que Suetônio também narra a ascensão de Augusto ao céu.
- Williams responde com a distinção decisiva: no contexto romano há panteão aberto, no judaico há um só Deus, e o extraordinário é que os cristãos mantiveram o monoteísmo e identificaram Jesus com esse Deus, como em Filipenses, que aplica a Cristo um texto de Isaías no qual Deus diz que todo joelho se dobrará diante dele. Apresenta a ressurreição não como anomalia isolada e sim como parte de um padrão de sinais em torno de uma figura já singular por outros motivos.
- Holland narra a virada intelectual que o levou a “Dominion”: ao escrever sobre o Islã, julgou-se mais objetivo que os estudiosos muçulmanos por não crer, até que uma mulher muçulmana o confrontou na plateia perguntando por que ele nunca faria aquilo com o próprio sistema de crença, e ele reconheceu que seu agnosticismo humanista era ele mesmo contingente, uma versão aguada de cristianismo.
- Sobre o cristianismo cultural, Williams diz que o melhor do cristianismo é Jesus e que ser cristão cultural é melhor que nada, mas incomparável à relação pessoal. Holland argumenta que ninguém é mais cristão culturalmente que o ateu que diz não precisar da Bíblia para cuidar do fraco e do refugiado, atitude que a um romano pré-cristão pareceria demente.
- Sobre o cânon, Williams recusa centrar a questão no século IV, lembra que já na segunda metade do século II os quatro evangelhos aparecem no Egito, na Gália e na Síria sem poder central, e mostra que cada evangelho reivindica autoridade desde a abertura (João ecoa Gênesis 1, Mateus a genealogia, Lucas o casal estéril de 1 Samuel, Marcos o retorno de Elias). Holland conta que abandonou a versão romanesca dos evangelhos gnósticos censurados e situa a formação do cânon como reação a Marcião, observando de passagem que a igreja contemporânea é bastante marcionita por não saber o que fazer com o Antigo Testamento, e que os textos gnósticos são intelectualmente esnobes, ao contrário dos evangelhos, compreensíveis ao camponês e ao erudito, como em Orígenes diante da imagem do menino mamando no peito da mãe.
- Sobre o intervalo de quarenta anos até a redação, Williams responde que os evangelhos estão perto o bastante dos eventos para acertar e longe o bastante para errar, e defende a autoria tradicional pelo argumento de que ninguém inventaria os nomes de Marcos e Lucas, que não eram testemunhas oculares nem figuras famosas. Holland sugere duas causas para a demora, a expectativa apocalíptica iminente e a necessidade de traduzir a história judaica e galileia para leitores gregos do império.