Programa ao vivo do Meio com Pedro Dória, Yasmin Restum, Flávia Tavares e o analista Magno Karl (grafia incerta), no qual a briga de decisões monocráticas entre André Mendonça, Flávio Dino e Luiz Fux sobre o boato da padroeira serve de porta de entrada para a tese central de Dória, o Brasil já está vivendo o tipo de crise institucional que historicamente termina em ruptura, com todos os poderes usando seu poder no limite, e a novidade é que agora o Supremo entrou no jogo.
talvez
o valor para o Bruno está na parte epistemológica e na parte religiosa, não na eleitoral: a distinção entre plausibilidade e fato aplicada simetricamente aos dois campos é um bom exercício de honestidade argumentativa, e o programa registra com clareza o atrito entre bases católica e evangélica, inclusive a menção à teologia do domínio. O trecho curto que o canal publicou em separado cobre o essencial desse miolo, de modo que as quase duas horas só valem se ele quiser o debate institucional completo.
O que foi dito
- Reconstituem a sequência: na sexta, Mendonça suspendeu pelo TSE os posts que ligavam Flávio Bolsonaro à retirada do título de padroeira, alegando desinformação. No domingo, Dino desfez a decisão dentro do STF alegando risco de censura em massa. Na segunda à noite, Fux invocou o Marco Civil da Internet, suspendeu Dino e restabeleceu Mendonça. As três decisões são monocráticas e nenhuma passou por plenário.
- Flávia Tavares separa duas coisas: a polêmica religiosa, que tem potencial de rua, e a rinha institucional, que não vai às ruas mas é sintoma concreto de que cada grupo político se considera dono de um ministro. Nada do que foi feito é ilegal, e é justamente o desembaraço com que todos acionam seu ministro de estimação que corrói a estabilidade da Justiça Eleitoral, que ela lembra ser uma jabuticaba brasileira que vinha dando certo e é admirada por outras democracias.
- Magno Karl formula a autocrítica de fundo: a sociedade cultivou a ilusão de que fake news é categoria objetiva, decidível no olhar, e entregou a poucas pessoas o poder de deliberar sobre isso. Enquanto o instrumento era novo e usado num único lado, parecia justiça. Agora que serve a todos os campos, aparece o problema, e a reflexão devida não é sobre a eleição, é sobre os poderes que se concedeu sob a promessa de proteção.
- Dória faz autocorreção em público sobre quem peticionou a Dino (foi o próprio Antônio Tabet, e não um terceiro, como ele dissera na véspera), dá razão a Flávia Tavares e usa o episódio para introduzir o tema do método.
- Expõe então a costura que vem recebendo de colegas jornalistas: o pastor de Flávio detesta imagens, um ex-assessor de Bolsonaro apresentou projeto hoje arquivado, Flávio falou em consagrar o Brasil a Jesus Cristo, existe grupo protestante que quer desinstitucionalizar a herança católica. Tudo verdade, e ainda assim, diz ele, a soma não produz o fato. O critério é simples e não foi cumprido, não há documento nem declaração.
- Faz a mesma demonstração com o outro campo: é verdade que Lula tolera mais ditadores de esquerda que de direita, que conviveu com Maduro, Ortega e Putin, que convive com o MST e com o Foro de São Paulo, e ainda assim a soma não autoriza chamá-lo de radical ou golpista. Acrescenta que todo mundo tolera mais os radicais do próprio lado.
- Define a técnica retórica em questão, ligar o alarme sem mentir, construir a mentira dizendo só verdades, e insiste que boato é sempre plausível porque sempre trabalha com verdades parciais e medos reais. A conclusão é a exigência democrática de um método comum para estabelecer fatos.
- Flávia Tavares faz o contraponto em camadas, distinguindo a fala da jornalista Maria Cristina Fernandes (que nunca citou Flávio), a militância de redes que turbinou aquilo em fake news, a exploração eleitoral por candidatas como Tabata Amaral e a sátira de Antônio Tabet. Diz discordar do método e explica sua origem, a decisão, assumida desde a entrada de André Janones na campanha de 2022, de usar as mesmas armas da extrema direita.
- Observa por que o tema pegou só agora: pesquisadores sérios discutem há anos o avanço evangélico e a teologia do domínio sem viralizar, porque descrição de fenômeno não vira notícia, só a afirmação de que um candidato vai agir.
- Magno Karl amplia com o problema duplo, tecnológico e de poder: o filtro que jornalistas profissionais exerciam entre o fato e o público acabou com a internet, e a sociedade tentou transferir esse filtro a um juiz, que decide sim ou não sobre matéria cheia de nuances. Cita como exemplo a impossibilidade de arbitrar sobre um post que diz que Lula apoia a ditadura de Maduro, já que há vídeo dele pedindo voto para Maduro, e há nuances defensáveis dos dois lados.
- No trecho mais forte do programa, Dória descreve o cenário que esperava (Bolsonaro fora de cena, Lula em último mandato, renovação nos dois campos, espaço para reforma institucional, voto distrital misto, repactuação de poderes entre Congresso e Executivo) e diz ter perdido o otimismo. Argumenta que todas as crises brasileiras que terminaram em golpe (1889, 1894, 1930, 1937, 1945, 1954, 1964) começaram com jogadores trucando uns aos outros no limite do próprio poder, e que a diferença desta é só uma, o Supremo entrou no jogo.
- Recusa explicitamente a ideia de golpe de esquerda, por falta de força, de desejo institucional e de maioria popular, e diz que, se houver fechamento, será pela direita, já que as Forças Armadas são conservadoras. Ao mesmo tempo, atribui à esquerda a fantasia de que o risco de ruptura depende de quem vence.
- Magno Karl acrescenta o dado que considera mais grave: a Polícia Militar é hoje mais popular que o Supremo, e um tribunal que decide sobre quase tudo no país, de matéria constitucional a privatizações e aposentadorias, perdeu a presunção de imparcialidade que não voltará depois da eleição. Propõe como saída um compromisso do próximo presidente com um novo modelo de indicação de ministros, e a vinculação dos recursos que migraram para o Congresso a responsabilidades correspondentes.
- Sobre o vazamento das mensagens de Flávio Bolsonaro, os três convergem: o escândalo sexual não é a notícia, e Dória defende com orgulho a tradição da imprensa brasileira de não fazer jornalismo de alcova. O que importa na reportagem de Rodrigo Rangel no Platô BR é o balcão de lobby no gabinete de Kassio Nunes Marques, e ele acrescenta a ressalva de que o Platô recebeu dinheiro do Banco Master e que outros veículos precisam apurar.
- Faz então uma digressão sobre a história do escândalo sexual na imprensa: Gary Hart flagrado em 1988 por um repórter do Miami Herald, o que rompeu a contenção que protegera Kennedy e abriu caminho para o caso Lewinsky. No Brasil, lembram Palocci e o caseiro Francenildo, em que o problema não era a festa e sim a quebra ilegal de sigilo bancário, e Renan Calheiros pagando despesas com dinheiro de empreiteira.
- Flávia Tavares registra a gafe de Lula em Belém, a frase sobre mulheres acostumadas ao toque desde pequenas, dita ao comparar com a resistência masculina ao exame de próstata, e mostra o mecanismo: sem qualquer indício de conteúdo real, a direita converteu improviso mal formulado em fake news com hashtag, exatamente o que a esquerda fez no caso da santa.
- Fecham com o debate da Globo. Dória considera a recusa de Lula um erro grave, já que ele faz debate de alto nível desde 1989 e “janta” os adversários previstos (Flávio, Ronaldo Caiado e Augusto Cury). Flávia relata os sinais trocados, com Camilo Santana afirmando que Lula irá enquanto a CNN noticia articulação para uma entrevista em podcast de grande alcance, e o argumento verbalizado por Edinho Silva, o formato favorece ataque direto com pouco tempo de resposta e geraria cortes indefensáveis até domingo. Magno responde que os cortes serão feitos de todo modo, e que a cadeira vazia apenas impede qualquer defesa.