Live de quase duas horas em que Pedro Doria e Yasmin Restum apresentam a última pesquisa Meio/Ideia antes do primeiro turno, com Flávia Tavares, Sila Schuman (grafia incerta, do Instituto Ideia), Mano Ferreira (Livres) e Débora Bizarria; o diagnóstico comum é que a eleição está empatada em todos os índices, calcificada como nunca, e que a disputa se decide por abstenção, voto útil de última hora e por um eleitorado feminino de classe C no Sudeste que nenhuma campanha soube atender.
talvez
duas horas de análise eleitoral que vencem no dia 4, mas o segmento final merece revisita pontual: a explicação da fórmula "decretar o Brasil ao Senhor Jesus" como herança da confissão positiva (New Thought, Kenneth Hagin) é rara em jornalismo político e conversa diretamente com a crítica que o Bruno faz ao misticismo neopentecostal.
O que foi dito
- Os números: na espontânea Lula 31,5% e Flávio Bolsonaro 30,5%; na estimulada Lula 39,4%, Flávio 38,4%, Augusto Curi 6,7%, Renan Santos 4,5%, Ronaldo Caiado 4,4% e Zema 3,5%; no segundo turno 48,5 a 48; e avaliação do governo considerada ruim ou péssima por 41%.
- Doria, que cobre eleições desde 1998 e acompanha desde 1989, diz nunca ter visto eleição que termine empatada no primeiro turno; Sila Schuman, que cobriu a campanha de Tancredo, dá 60% de chance de segundo turno e 40% de desfecho no domingo, número que o próprio Doria considera alto.
- Sila explica por que a equipe passou a olhar mais a espontânea que a estimulada: a estimulada aglutina a oposição contra Lula e produz equilíbrio artificial, enquanto a espontânea mede eleitor engajado, e no Brasil se vota espontaneamente, digitando o número na urna; adverte que a pesquisa não tem capacidade de projetar votos válidos, porque 25% somam indecisos, brancos e nulos na espontânea, e que o antipetismo de chegada ocorre no sábado ou na própria fila, fora do alcance de qualquer instituto.
- Ela caracteriza o ciclo como “a eleição dos anestesiados”: nenhum partido quis lançar candidato para ficar em terceiro ou quarto lugar como era usual, todos os candidatos são de chapa pura exceto Lula, e a campanha discutiu só crise do STF, crise religiosa e exame de próstata, nada de propostas, de modo que só se olha pelo retrovisor.
- Repete a tese que o instituto sustenta desde janeiro: a eleição se decide por cerca de 3% formados por mulheres indecisas da classe C do Sudeste, eleitoras que já votaram em Bolsonaro e já votaram em Lula e agora perguntam apenas quem vai melhorar a vida delas; Sila diz ter feito mais de 300 grupos qualitativos com esse eleitorado neste ano, e os descreve no corre, vendendo bolo e roupa, revendendo pela Shopee, sem CLT, tendo experimentado plano de saúde e escola privada no Lula 2 e regredido depois da pandemia.
- Mano Ferreira analisa a desidratação de Zema como sintoma do Partido Novo: pressão interna para desistir antes do primeiro turno, abandono pelo próprio vice e sucessor Mateus Simões (que mudou para o PSD e tirou Zema dos santinhos), e um partido que abriu mão de visão própria para funcionar como cartório de linhas auxiliares do bolsonarismo; Sila acrescenta o erro estratégico de pulverizar recursos e arriscar a cláusula de barreira, em contraste com o PSD de Kassab, que lançou Caiado mas investiu nas candidaturas a deputado.
- Doria levanta um cálculo contraintuitivo: se Zema renunciasse publicamente, seus votos seriam computados como nulos pelo TSE, reduziriam os válidos e aumentariam a chance de desfecho no primeiro turno, o que poderia favorecer quem estiver à frente, de modo que a pressão não faz sentido estratégico.
- Mano observa que só Renan Santos apresenta perspectiva de longo prazo, falando do Brasil de 2050 e tentando conexão geracional, enquanto Caiado faz campanha de despedida, o Novo abre mão do futuro e o próprio Curi diz que, se não eleito, volta à iniciativa privada; o imediatismo da eleição de deputados federais tirou dos partidos o apetite por projeto.
- A tabela de transferência de votos desmonta a leitura ideológica: Curi dá 57% dos votos a Lula no segundo turno, Caiado dá 37% a Lula e outros 37% a branco e nulo (dando mais voto a nulo que a Flávio, ele que era o candidato mais à direita de 1989), Renan transfere 82% a Flávio e Zema cerca de 47%; a conclusão é que esse eleitorado não vota pensando em direita e esquerda, e que o eleitorado de Curi é o centro liberal que os partidos não entregaram e o eleitor inventou.
- Flávia Tavares faz a crítica mais dura à campanha de Lula, que considera pouco profissional e marcada por soberba, levantando como hipótese plausível o efeito do racha entre o grupo de Janja e o de Sidônio: houve a certeza de que “Dark Horse” desidrataria Flávio, depois de que o atrito com Michelle desidrataria, e a aposta personalista numa campanha de gratidão ao passado, que envelhece em ideias; só dez dias antes viraram todas as chaves de uma vez, e nenhuma era bala de prata.
- Mano lê como arrogante a postura do governo diante do eleitorado, citando o vídeo do PT em que uma mãe dá sermão ao filho por não saber como era antes do Bolsa Família, e relatos de membros do governo segundo os quais votar nulo seria irresponsabilidade com a democracia: o pedido é de gratidão, não de convencimento.
- Flávia narra o caso Blaze a partir da apuração de Demétrio Vecchioli no Metrópoles: Willer Tomás, advogado e amigo próximo de Flávio, cotista do avião de Vorcaro, apostou R$ 5 bilhões na plataforma, cerca de R$ 500 mil a cada quinze segundos, e combinava com o concierge da casa maneiras de burlar a regulação federal, com inquérito aberto pela Polícia Federal; o espanto dela é que nada disso mexe, nem bets, nem Nossa Senhora, porque o eleitor de Flávio não tem para onde correr.
- O debate da Globo é resolvido ao vivo: durante o programa chega a informação de que Lula não participará, com Flávio, Caiado, Curi e Zema confirmados e Renan fora; Mano defende a ida como imperativo democrático, Sila diria para os dois não irem por cautela mas confessa que iria e entregaria proposta para mulher no primeiro bloco, e Doria nota que a primeira agenda confirmada de Lula na sexta é no Rio, sinal de que a decisão era mantida aberta até o fim.
- Sobre o que ainda pode mudar voto, a pesquisa mostra 45% dispostos a mudar por uma proposta nova que ainda não conhecem, 29% por escândalo de corrupção de última hora e 21,5% para encerrar no primeiro turno; Doria contrapõe que, quando se pergunta o motivo da rejeição, corrupção responde por 54% e falta de propostas por apenas 11,3%.
- Débora Bizarria oferece a explicação que ela considera a mais interessante: as pessoas associam baixo crescimento a roubo (“o Brasil é tão rico, se o povo não roubasse tanto”), numa mentalidade de soma zero que ela discute em coluna na Folha, reforçada por pesquisas sobre jovens criados em períodos populistas, e que convive com o “rouba mas faz” do malufismo; Sila acrescenta que a corrupção voltou à agenda distribuída entre todos os lados (Master e Vorcaro, INSS, Lulinha, Dark Horse), diferente de 2018, e por isso serve sobretudo para justificar escolha já feita.
- No trecho de maior interesse teológico, uma das comentaristas, evangélica, explica que a polêmica da padroeira não circulou em bastidor evangélico nenhum antes da notícia sobre a preocupação católica, que no meio evangélico o assunto da semana foi bets, e sobretudo que a fala de Flávio sobre “decretar o Brasil ao Senhor Jesus” precisa ser lida como linguagem gospel: decretar, declarar e consagrar têm sentido espiritual e não necessariamente desdobramento material, e vêm do New Thought americano dos anos 1940-1950, difundido no Brasil nos anos 1970 e 1980 pelo missionário Kenneth Hagin, isto é, a forma de orar que declara a cura em vez de pedi-la, prática que ela considera estranha ao cristianismo e quase herética; sua leitura é que a frase sinaliza ao grupo pentecostal próximo de Michelle Bolsonaro, não que anuncie política pública.
- Ela observa ainda um efeito colateral curioso do bolsonarismo: ele fez crente parar de brigar com católico, e só depois do fim daquele governo ela voltou a ver “treta teológica” no YouTube.
- Sila encerra com o cenário pós-eleitoral: o Senado tende a sair mais à direita e talvez mais bolsonarista, com possibilidade real de abrir processos de impeachment de ministros do STF, de modo que a crise institucional não termina no primeiro nem no segundo turno, e se soma à economia, ao fiscal e às guerras simultâneas que afetam energia e petróleo.