a tese
Trent Horn responde à tese de que Cristo nunca riu, defendendo que o riso de Jesus aparece no próprio modo dele ensinar (comparações absurdas e jogos de palavras) e que negá-lo por incompatibilidade entre o divino e o absurdo mina a encarnação. Ele percorre a história da suspeita cristã do riso e termina no uso evangelístico do humor.
aprofundar
não
é apologética católica de divulgação, bem documentada e divertida, mas o único fio que renderia a Bruno é o jogo de palavras aramaico de Mateus 23.24, que se confere direto em comentário.
O que foi dito
- O alvo inicial é o bispo sedevacantista Donald Sanborn, que nega senso de humor em Cristo porque o humor seria a associação de conceitos absurdos (o exemplo dele é a torta na cara, dignidade mais indignidade) e isso não cabe no intelecto divino nem no intelecto humano com ciência infusa.
- Horn responde que Jesus faz exatamente esse tipo de associação absurda ao ensinar, como a trave no próprio olho diante do cisco no olho do irmão, usada para expor hipocrisia.
- O argumento mais interessante é filológico: “coar o mosquito e engolir o camelo” seria jogo de palavras em aramaico, qalmā (mosquito ou piolho) contra gamlā (camelo), piada perdida na tradução.
- Ele desconta o oponente pelo flanco eclesiológico, lembrando que Sanborn rompeu com a FSSPX para formar a SSPV e sustenta que não há papa válido desde 1958, posição que Horn confronta com Leão XIII e Pio IX sobre a indefectibilidade e a visibilidade da Igreja.
- O ponto teológico central: dizer que o divino não convive com o absurdo destrói a encarnação, pela mesma lógica que impediria Jesus de chorar de luto, contra João 11.35.
- A galeria histórica é o melhor do vídeo: Billy Graham respondendo “tenho pena do seu amigo”, o bispo episcopal Irving P. Johnson (1928) admitindo “hilaridade piedosa” mas negando-a a Cristo, a resolução de John Wesley de nunca se permitir a menor leviandade nem o riso, e o clérigo escocês Alexander Ross (1652) alinhando Crisóstomo, Agostinho, Basílio e Bernardo pela tese negativa.
- Nos padres, Clemente de Alexandria dedica no “Pedagogo” um capítulo contra os gelotopoioí (fazedores de riso) e Crisóstomo pergunta nas homilias sobre Hebreus “tu ris? onde ouviste que Cristo o fez? em lugar nenhum”, enquanto a Regra de São Bento proíbe ao monge palavras que movam ao riso.
- Horn identifica dois erros de método nos críticos, uma sola scriptura às avessas (o silêncio da Escritura como prova de que algo não ocorreu, refutado pelo fecho hiperbólico de João 21.25) e o hipertradicionalismo que idealiza o passado e não admite erro nem desenvolvimento.
- A virada histórica vem com Peter Jones (“Laughter and Power in the Twelfth Century”), que mostra os escolásticos deslocando o foco para a disposição interior, com Tomás de Aquino corrigindo quem usava Ambrósio e Crisóstomo para condenar todo humor, e com a tipologia do risus mysticus, blasphemus e regalis, ilustrada por Henrique II e por Tomás Becket, o “santo que ria”, morto em 1170.
- O fecho é magisterial e bíblico: a Gaudete et Exsultate de Francisco (o mau humor não é sinal de santidade, com Thomas More, Vicente de Paulo e Filipe Néri), o discurso de 2024 aos comediantes (homo sapiens também é homo ludens, mas o humor não humilha), o Sirácida 21.20, Eclesiastes 3, o nome de Isaque como “aquele que ri” em Gênesis 21.5-7, e Bento XVI citando que os anjos voam por não se tomarem a sério demais.