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Gilmar e Moraes dão recados ao bolsonarismo após vitória de Flávio no 1º turno | Central Meio

a tese

Ao vivo depois do primeiro turno, Pedro Doria e convidados leem a leva de decisões favoráveis ao bolsonarismo no STF como prova de que não houve "ditadura de toga", mas um Judiciário que se move pelos ventos eleitorais. A tese de fundo é que o Congresso eleito nas franjas da radicalização digital transforma o parlamento de máquina de consenso em máquina de dissenso, e que a esquerda perdeu a classe C urbana por desprezar o sonho de ascensão dela.

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talvez

porque a primeira hora tem teoria política aproveitável para o Bruno (thymos e identidade em Fukuyama, o chamado da tribo em Vargas Llosa, o amor à liberdade alheia em Nabuco, a leitura das guerras de religião como origem da democracia liberal e os vetores escravagista e abolicionista), além do episódio Allan dos Santos contra a CNBB e do dado de que os grandes pastores não foram reeleitos; a parte de conjuntura eleitoral vence em 25 de outubro.

O que foi dito

  • O programa abre com quatro decisões do STF em 24 horas: Alexandre de Moraes concedeu progressão ao semiaberto a Débora Rodrigues dos Santos, a “Débora do batom”, condenada a 14 anos pelo 8 de janeiro, e liberou a visita de Flávio Bolsonaro ao pai na prisão domiciliar; foram arquivados os casos de Marcos do Val, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ednardo Raposo, indiciados por obstrução de justiça e incitação ao golpe; e Gilmar Mendes mandou arquivar a investigação de suspeita de estupro contra Alfredo Gaspar, candidato a vice de Flávio, sem que a mulher que acusa tenha sido ouvida pela polícia.
  • Mano Ferreira (grafia incerta), do Livres, extrai disso o diagnóstico de que a narrativa bolsonarista de “ditadura de toga” sempre foi equivocada, porque o que existe é o oposto: um Judiciário politizado que se deixa levar pelos ventos da política e pelo desejo do eleitor, transformando a lei em instrumento conveniente, o que ele considera péssima notícia para o Estado de direito.
  • Sobre o Congresso eleito, Mano aponta a vitória dos extremos (Jones Manoel, Erika Hilton com concentração de votos que desperdiçou cadeiras do partido, Lucas Pavanato, Nikolas Ferreira, Campagnolo) e a derrota de parlamentares de centro e do próprio centrão, com Gilberto Kassab como maior derrotado; o problema é que esses mandatos se sustentam no conflito com o adversário, enquanto o parlamento existe para produzir acordo.
  • Doria desenvolve isso com Fukuyama e com John Stuart Mill: a democracia liberal nasceu porque protestantes e católicos passaram dois séculos se matando na Europa, e o nacionalismo do século XIX foi civilizatório porque colocou a identidade comum acima das identidades parciais; as redes sociais operariam uma retribalização, um retorno à Reforma e Contrarreforma e à noite de São Bartolomeu, de modo que o problema real não é fake news nem desinformação, é tribalização, e o parlamento eleito é o cenário de pesadelo de Fukuyama.
  • Mano acrescenta o conceito grego de thymos (a parte da alma onde se reconhece a própria identidade) e o alerta de Mario Vargas Llosa em “O Chamado da Tribo” e “A Civilização do Espetáculo”: a sociedade do espetáculo esvazia a cultura (cultivo) pelo entretenimento viciante, e o antídoto que ele propõe vem de Joaquim Nabuco, cultivar o amor à liberdade alheia; conclui que o Brasil carrega ao mesmo tempo um vetor escravagista e um abolicionista, e que a armadilha maior é a certeza de representar só as virtudes do abolicionismo, porque daí se extrai autorização moral para cometer atrocidades em nome das melhores causas.
  • Doria confronta diretamente a tese de Celso Rocha de Barros de que a imprensa normalizou o bolsonarismo: a imprensa profissional alcança classes A e B, que não se moveram, e no levantamento dele por bairros Lula venceu os bairros mais ricos do Rio por quatro pontos, Flávio venceu os de São Paulo por dois, mas na São Paulo rica tradicional (Higienópolis, Paraíso, Santa Cecília, Jardins) Lula venceu, e entre eleitores com diploma superior e renda familiar per capita acima de R$ 15 mil o voto em Lula até cresceu; a culpa, para ele, é da esquerda, que só conversa com a elite, trocou preocupações de classe por gênero e raça, e oferece ao eleitor de classe C apenas emprego com carteira assinada, quando ele quer empreender.
  • Esse ponto rende a comparação com 2002, quando a propaganda de Duda Mendonça colocava o personagem Seu José Silva pedindo oportunidade de sonhar, e com uma pesquisa encomendada pelo próprio PT há mais de dez anos recomendando olhar diferente para a classe C, coordenada segundo Doria por Pochmann (grafia incerta na legenda); Débora Bizarria conta que escreveu coluna intitulada “o pobre tem direito a um sonho grande” e foi xingada por isso, e observa que o Brasil tem péssimos índices de mobilidade social sem que isso entre no debate eleitoral.
  • A aritmética apresentada por Doria: Lula está cerca de 2,3 milhões de votos atrás, recuperar abstenção rende menos de 500 mil, brancos e nulos não querem nenhum dos dois, e portanto ele precisa virar cerca de 1,2 milhão de votos de pessoas que votaram nele em 2022 e em Flávio agora, concentradas na classe C urbana das grandes cidades; nunca o primeiro colocado perdeu um segundo turno desde 1989, mas nunca a distância foi tão pequena, e naquela manhã Lula gravou pela primeira vez um vídeo de selfie chamando a militância, sinal de que a campanha ainda não tem diagnóstico do que aconteceu.
  • Do lado de Flávio, Doria e Débora leem sinais contraditórios e risco de salto alto: Rogério Marinho promete ministério técnico com radicais vetados (Roberto Campos Neto na Fazenda, Cláudio Lottenberg na Saúde), enquanto outra ala fala em Eduardo Bolsonaro na chancelaria, que Doria qualifica em termos duros como o mais extremista dos filhos; senadores eleitos já anunciam que não haverá impeachment de ministro do STF nem CPMI do Banco Master; o Partido Novo anunciou apoio a Flávio para “enfrentar os intocáveis do STF”; e Gilson Machado declarou à Rádio Folha de Pernambuco que a Constituição perdeu o prazo de validade e deve ser reescrita do zero, o que Doria classifica, pela definição de golpe de estado como ruptura da Constituição, como promessa de golpe.
  • Débora Bizarria explica o split payment que Flávio promete extinguir (cobrança quase instantânea do IVA, queixa de varejo e serviços por capital de giro em contexto de juros altos) e alerta que reabrir a reforma tributária abre janela para novos lobbies e exceções, lembrando que hotelaria e parque aquático já conseguiram alíquota menor, e defende que a mudança da cobrança da origem para o destino é o maior ganho da reforma, ilustrando com o caso da fábrica da Jeep em Pernambuco, cujo subsídio, segundo o Tribunal de Contas, não se pagou pelos empregos gerados; Mano relata ainda que Allan dos Santos atacou bispos da CNBB chamando-os de pedófilos e encarnações do demônio, e Débora observa que os grandes pastores acusados de manipular o voto evangélico não foram reeleitos.
  • O bloco final é institucional: nos dez anos do Meio, Doria explica que quis fazer jornalismo digital sem o partidarismo que marcava os veículos nascidos em 2016, que análise difere de opinião porque explica os passos até a conclusão e assim serve a quem discorda, e que saiu do “armário ideológico” declarando-se liberal porque é injusto esperar que o leitor sem formação em filosofia política identifique o prisma de quem fala.

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