Radar

radar · Política & notícias

Quem vai decidir a eleição | Ponto de Partida

a tese

Pedro Doria sustenta que o segundo turno será decidido por um eleitor sem lado (cerca de um em cada cinco), que tem o perfil social do eleitorado de Lula sem a identidade petista, e que Lula tem a entrega sem o discurso enquanto Flávio Bolsonaro tem o discurso sem a entrega. Ganha quem disser as duas coisas primeiro, com respeito sincero.

aprofundar

talvez

porque o diagnóstico sociológico tem carga teológica aproveitável (os 22% que atribuem a realização dos próprios sonhos a Deus e à igreja, a maioria católica nesse grupo e a sobreposição quase total entre coaches de enriquecimento e extrema direita), material para uma análise avulsa sobre religião e ascensão social, embora como peça eleitoral o vídeo se esgote no dia 25.

O que foi dito

  • O ponto de partida é uma virada: no começo de agosto quem diz não ter votado em 2022 preferia Lula a Flávio Bolsonaro por 44 a 31, e um mês depois preferia Flávio por 48 a 28, num grupo que não se diz de esquerda nem de direita.
  • Nas seis rodadas da pesquisa Meio/Ideia desde maio, o voto de Lula no segundo turno é uma linha reta, sempre na margem de erro, enquanto o de Flávio oscilou oito pontos (caiu de 45 para 40 entre maio e julho, no episódio do áudio com Daniel Vorcaro e da briga com Michelle Bolsonaro, e depois subiu a 48); isolando o voto firme, Lula tem 30% do eleitorado rodada após rodada e Flávio varia de 22 a 27, de modo que quase metade do voto de Flávio é inseguro e só metade de seus eleitores se define como direita bolsonarista.
  • O eleitor que se move tem a cara social do eleitor de Lula e não a identidade: mais mulher do que homem, um terço das classes D e E, mais da metade católica, escolaridade fundamental ou média, periferia das grandes cidades ou interior, mais da metade sem posição política declarada e quatro em cada dez avaliando o governo Lula como regular.
  • Esse eleitor não atravessa de um candidato para o outro, ele entra e sai da eleição: quando Flávio caiu em julho, foi para branco, nulo e indeciso, e numa pergunta de fim de setembro a quem ainda podia mudar o voto, 18% iriam para Lula, 16% para Flávio e 51% para ninguém; em 2022 o Instituto Locomotiva acompanhou as mesmas pessoas e 18% votaram diferente do que tinham dito três dias antes, proporção que sobe a um em quatro entre quem ganha até dois salários mínimos.
  • O que esse eleitor pede é exatamente o que o PT promete entregar: entre os que estão com Flávio e não votaram em 2022, 42% apontam saúde, educação e serviços básicos como prioridade, mais do que entre os eleitores de Lula, e o governo entregou aumento do Bolsa Família, salário mínimo acima da inflação e isenção de imposto de renda até R$ 5.000 em janeiro.
  • A explicação de Doria para o paradoxo é de autoatribuição: numa pesquisa de Renato Meirelles para o livro “Brasil da Maioria”, à pergunta sobre quem vai realizar os seus sonhos, 49% responderam “eu mesmo”, 22% Deus e a igreja, 12% a família e 3% o governo federal; a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado ouviu por anos moradores do Morro da Cruz, em Porto Alegre, e viu homens atribuírem a melhora ao próprio esforço e culparem Lula pela piora, sem que ninguém tivesse enriquecido ou empobrecido, porque Bolsa Família e salário mínimo viraram “dados da realidade”, o chão, e ninguém agradece pelo chão.
  • O discurso de ascensão da direita também para no meio do caminho: em agosto, perguntados que tipo de trabalho oferece as melhores condições, 23% dos que votaram em Bolsonaro em 2022 escolheram o próprio negócio, contra 15% entre os que não votaram, com 37% sem resposta; Pinheiro-Machado leva a sério o “CEO de MEI” porque o título dá dignidade a quem passou a vida na rua, e não ter patrão sempre foi desejo nesse grupo.
  • Meirelles descreve o mesmo brasileiro olhando o Estado com dois olhos: na fila da UPA falta Estado, na papelada para abrir uma barbearia sobra Estado, e ele quer as duas coisas ao mesmo tempo; entre as mulheres do grupo, a síntese é a frase de uma delas, que o que quer é poder escolher o horário de ser mãe.
  • Dois dados fecham o diagnóstico: numa pesquisa da socióloga Esther Solano com a cientista política Camila Rocha, uma eleitora de 31 anos em São Paulo resume que “o PT dá comodismo, o Bolsonaro incentiva a gente a batalhar”; e Pinheiro-Machado levantou os 612 maiores coaches do Brasil nas redes, dos quais nove em cada dez estão alinhados à extrema direita, de modo que a direita ocupou a linguagem do sonho enquanto o Lula ficou com a obra; já o Locomotiva mediu a distância entre eleitores de Lula e de Bolsonaro e achou 37 pontos em identidade de gênero, 32 em armas e zero na ideia de que o governo deve resolver problemas concretos.
  • A aritmética é apertada: Lula saiu do primeiro turno 2,2 milhões de votos atrás e precisa que cerca de 1,2 milhão de pessoas troquem Flávio por ele (cada troca conta dobrado), mas esse eleitor quase nunca troca, costuma ir para o branco, e nesse caminho Lula precisaria do dobro; Doria fecha com as duas frases de Meirelles que, segundo ele, deveriam estar na parede das duas campanhas (“não quer tutela, quer parceria” e “não quero promessa, quero paz”), e num bloco editorial critica a imprensa de esquerda por tratar o pobre de direita como enganado e a de direita por tratar o golpismo com displicência, citando a admissão de Valdemar Costa Neto na Rádio Gaúcha naquele mesmo dia.

Mais de Meio

255 no radar
10/10A esquerda consegue virar o placar? | De Tédio a Gente Não Morreaprofundar: talvez09/10Suposto áudio de Vorcaro e a polêmica do filme sobre Lulaaprofundar: não09/10Quem entende melhor a Classe C? | Ponto de Partidaaprofundar: talvez09/10Nikolas e Ana Elisa em batalha, militâncias de Lula e Flávio espalham mentiras | Central Meioaprofundar: não09/10Datafolha: Flávio tem 52% e Lula, 48% dos votos válidosaprofundar: não

todos os 255 vídeos de Meio no radar →