a tese
Miles Donahue entrevista o filósofo de Oxford Tim Mawson (autor de "God and the Meanings of Life") sobre o que é o sentido da vida; Mawson defende que a pergunta é polivalente (muitas perguntas em uma) e que Deus, o além-túmulo e a vocação aumentam o sentido, mas não de forma simples nem uniforme.
aprofundar
sim
é filosofia da religião analítica densa e diretamente no interesse do Bruno (molinismo, teísmo aberto, atemporalidade divina, valor objetivo), com boa matéria para uma análise avulsa; as 86 min pedem tempo, mas o conteúdo é de primeira.
O que foi dito
- Antes do tema, Mawson resume um artigo em que argumenta que o teísmo aberto (Deus dentro do tempo) implica que Deus quase certamente criaria, pois em infinitos momentos de escolha com probabilidade não nula a criação se torna praticamente certa; Donahue objeta que isso empurraria para uma criação eterna, e discutem a saída de William Lane Craig (Deus atemporal sem a criação, temporal com ela).
- Mawson sustenta a “tese da polivalência”: “qual é o sentido da vida” mistura perguntas distintas (significado, propósito, valor, destino final, satisfação existencial no leito de morte) que convém desagregar antes de responder.
- Expõe o mapa padrão do campo: distingue “sentido da vida” (cósmico, que eles não tratam) de “sentido na vida”, e as três posições (subjetivista, objetivista, híbrida), ilustradas pelo filatelista apaixonado, pelo funcionário de caridade desafeto e pelo trabalhador engajado numa causa que vale.
- Donahue pressiona que objetivo/subjetivo é uma distinção ortogonal a essas três, e que se pode ser objetivista e niilista (as condições para sentido objetivo simplesmente não se cumprem se o realismo moral for falso); Mawson concorda e liga isso ao argumento de Craig de que sem Deus não há valor objetivo nem destino último.
- Sobre o que Deus pode acrescentar: além-túmulo (continuidade e volume de sentido), milagres em resposta à oração, e sobretudo vocações; usa o exemplo bíblico de Jonas (propósito atribuído por Deus que não gera felicidade nem, por si, sentido) para separar propósito de significado.
- Defende que Deus dá vocações com níveis diferentes de sentido (Martin Luther King versus o pacato Bob Smith), rejeita a intuição de que isso seria injusto e discute incomensurabilidade de valor entre uma vida mais significativa e outra mais feliz.
- Enfrenta o problema do tédio na imortalidade (Bernard Williams, Aaron Smuts): argumenta que a vida no céu é infinito potencial, não atual, e que um Deus onipotente pode nos capacitar a não nos entediarmos da atividade infinitamente absorvente (a adoração), usando a analogia de aprender a apreciar Wagner.
- Sobre a falta de urgência num tempo infinito, responde que atividades intrinsecamente valiosas não se adiam como tarefas chatas, ancorando no verso de “Amazing Grace” (“when we’ve been there 10,000 years”).
- Sobre o que Deus não pode acrescentar, distingue supernaturalismo extremo (só Craig o sustenta: sem Deus, zero sentido) do moderado (a maioria: sem Deus haveria algum sentido, porém menor); admite perdas com a existência de Deus (autonomia reduzida à la Sartre, e vidas de ateus militantes como Russell tornadas menos significativas), mas se diz universalista.
- Conclui recusando resposta curta: o sentido da vida não cabe numa fórmula, e cita o tutor que dizia que a filosofia não acha a resposta, mas melhora a pergunta.