a tese
Primeira live de perguntas e respostas de Miles Donahue, doutorando em Oxford e filósofo do ajuste fino, sem pauta, em que ele responde ao chat sobre ajuste fino, problema do mal, deus mau, harmonia psicofísica e a própria fé, admitindo que acredita em Deus por razões pragmáticas e não pelos argumentos.
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Interessa a quem acompanha o debate contemporâneo de filosofia da religião, sobretudo pela honestidade de um defensor do ajuste fino que reduz a própria estimativa de força do argumento e admite a paridade inicial do deus mau, mas são 97 minutos dispersos de chat, com boa parte em anedota pessoal e jogos de videogame.
O que foi dito
- Comenta os debates recentes: o primeiro gravado em estúdio, em Londres, com Alex Malpass, no qual diz ter antecipado 95% dos pontos (só a seção sobre psicologia divina o pegou de surpresa), e o seguinte com Dan Linford, que considera tecnicamente mais duro; anuncia debate com Phil Halper no Premier Unbelievable sobre “a ciência enterrou Deus”.
- Responde à objeção de antropocentrismo dizendo que os parâmetros estão ajustados para estrutura complexa de qualquer tipo, não para vida humanoide de carbono, e distingue o ajuste fino planetário, explicável por efeito de seleção num universo cheio de sistemas estelares que já conhecemos, do ajuste fino cósmico, em que não há tal conhecimento de fundo independente, ponto que desenvolve no capítulo do Blackwell Companion sobre o multiverso.
- Faz uma concessão incomum: diz ter um artigo em avaliação em que defende a objeção da física mais profunda contra a formulação usual do argumento, e sustenta que, aplicada a lei da probabilidade total entre física atual e física futura, a confirmação que o teísmo recebe cai de algo como 10 elevado a 90 para uma ordem de 10 mil para um, força de evidência comum na vida ordinária.
- Sobre o deus mau, diz que o anti-teísmo lhe parece prima facie equiparável ao teísmo, já que os mesmos argumentos de simplicidade e atributos ilimitados valem para o inverso, e só durante a live aceita a assimetria sugerida no chat: onisciência mais internalismo motivacional implicam que quem conhece todos os fatos morais tem razão para agir conforme eles.
- Chama o problema do mal de fator que mais lhe tira segurança na crença em Deus, defende um teísmo cético mitigado que não anule o valor evidencial do mal, admite que ainda não o formulou com rigor, e reconhece que a história humana já contém os males que ele diria decisivos.
- Rejeita a teodiceia da não identidade (nossa existência específica dependeria dos males passados) porque Deus poderia ter criado outras pessoas com menos sofrimento, e trata como estranha a “teodiceia da omissão” que atribui males a anjos, publicada em Oxford Studies in Philosophy of Religion, embora reconheça que gente inteligente a leva a sério.
- Explica a harmonia psicofísica pelo caso epistêmico (ver um iPhone e formar a crença de que há um iPhone, em vez de experimentar cinza), mas declara que não está preparado para defender o argumento e que não tem certeza de que seja bom, e responde ao caso dos “elétrons apaixonados” argumentando que as leis psicofísicas entram como conhecimento de fundo, de modo que, dadas elas, Deus precisa ajustar as constantes.
- Avalia o argumento antrópico de Matthew Adelstein (Bentham’s Bulldog) baseado na self-indication assumption: concede a lógica, mas suspeita do passo que trata a própria existência como evidência infinita da existência de todas as pessoas possíveis, pela mesma razão que rejeita os argumentos cosmológicos a favor do multiverso; menciona também a objeção de James Fodor, que pretende responder.
- Nas posições pessoais, diz ser dualista de substância, realista moral robusto (com credência maior do que a que tem em Deus), libertariano quanto ao livre-arbítrio, cético quanto a milagres (embora considere fascinante a evidência de experiências de quase morte), e sem comentários sobre Jesus, sobre os milagres católicos e sobre a conversão de Joe Schmid; define-se como teísta e agnóstico além disso, compatível com universalismo, e recusa debater o tema LGBT por não se julgar capaz de objetividade ali.
- A resposta mais reveladora vem no fim: perguntado por que Deus existe, diz não ter argumento definitivo e crer porque a vida é melhor acreditando num Deus amoroso, sustentando que considerações pragmáticas podem tornar racional uma crença mesmo sem evidência decisiva, sem que isso comprometa a avaliação objetiva dos argumentos.