a tese
No terceiro episódio do TD Talk, Guilherme Nunes e o apresentador do Bibotalk discutem Habacuque 2.4 e seu uso no Novo Testamento, concluindo que "o justo viverá pela fé" comporta dois referentes legítimos, o Messias fiel e o povo que está nele, e que o texto não precisa ser fechado num só.
aprofundar
talvez
É boa exposição em português do debate sobre πίστις Χριστοῦ aplicado a Habacuque 2.4 e da posição de Hays e Wright, útil como mapa, mas a discussão para na superfície do grego (o genitivo nunca é analisado) e o Bruno chegaria mais longe indo direto a Hays e ao verbete correspondente no manual de Beale e Carson.
O que foi dito
- Situam Habacuque como profeta cúltico contemporâneo de Jeremias e Ezequiel, cujo livro é oração e lamento diante da iniquidade de Judá, e não pregação ao povo, com o refrão “até quando” e a suspeita de que o livro passou a ser lido no templo, dado o cântico do capítulo 3.
- Leem a resposta divina como a primeira resposta ao problema do mal: Deus diz que levantará a Babilônia para lidar com o pecado de Judá, o que Guilherme traduz na imagem de Deus levantando o crime organizado contra a própria igreja, e o profeta responde com a segunda pergunta, como Deus pode usar um povo ainda mais ímpio.
- A partir daí puxam uma digressão sobre a igreja que pede a troca de César, algo que a igreja primitiva nunca fez, e sobre Constantino, cujo conforto trazido à igreja teria ferido o senso de peregrinação.
- Apresentam a resposta de Habacuque 2: o profeta sobe à torre de vigia, recebe a visão que deve ser escrita em tábuas para leitura fácil (que o apresentador chama, brincando, de primeiro outdoor da história), e a sentença sobre o soberbo contraposta ao justo que viverá por sua אמונה, entendida como fidelidade à Torá e à palavra de YHWH.
- Levantam a leitura messiânica presente em parte da tradição judaica, segundo a qual o justo fiel é o Messias que virá livrar o povo, o que casaria com o versículo 3, sobre a visão que aguarda tempo designado e não falhará.
- Em Romanos 1.17, expõem o contraste entre a leitura individual de Lutero e a da nova perspectiva sobre Paulo, para a qual a justiça de Deus é a fidelidade dele ao pacto abraâmico e o evangelho revela a fidelidade do Messias, de modo que o crente vive pela fidelidade de Cristo, não pela própria, com apoio em Gálatas 2.20 (“a vida que agora vivo, vivo pela fidelidade do Filho de Deus”).
- Discutem a tradução de Gordon Fee, “de fé em fé” e “aquele que é justo pela fé viverá”, notando que ele interpreta a partir do Novo Testamento, enquanto quem vem de Habacuque encontra “o justo”, com artigo, não “aquele que é justo”.
- Passam a Hebreus 10.36-39, onde a aplicação recai sobre o indivíduo perseverante, e registram a variante textual entre “o meu justo” e “o justo”; sustentam que um mesmo texto do Antigo Testamento pode ter dois referentes por alusão, recorrendo à ideia de Larry Hurtado de que o texto que ganha uso litúrgico vai acumulando referentes ao ser cantado no culto.
- Guilherme diz seguir N. T. Wright e Richard Hays na ambiguidade entre o Messias e o povo do Messias, discordando da conclusão individualista do comentário de Beale e Carson sobre o uso do Antigo Testamento no Novo, e recomendam esse manual, a versão menor de Beale e o livro de Robert Alter O mundo da literatura bíblica, enquanto o apresentador fecha dizendo que alguns textos bíblicos não se fecham e que está tudo bem.