Episódio do "Pergunte ao Pastor" com perguntas de membros, em que Yago Martins rejeita a leitura de Michael Heiser sobre a "pedra" de Mateus 16, explica o herem do Antigo Testamento como escatologia inaugurada (Israel exercendo fisicamente o juízo que hoje só se dá no julgamento final de Cristo), e admite que 2Pedro 2:1 é o melhor texto arminiano contra o calvinismo que ele professa.
talvez
pelo trecho de 2Pedro 2:1, em que um calvinista convicto expõe a própria dificuldade em vez de escondê-la, e pelo argumento estatístico sobre "portas do Hades" contra Heiser, que merece checagem independente; a afirmação de que não há imprecação no Novo Testamento passa batida e é contestável (1Coríntios 16:22, Gálatas 1:8-9, Apocalipse 6:10).
O que foi dito
- Resume com cuidado a posição de Heiser sobre Mateus 16 (Cesareia de Filipe como região do culto a Baal, a gruta de Pã como “porta do submundo”, e “sobre esta rocha” como referência geográfica literal àquela rocha, com a igreja avançando contra as portas do Hades em vez de resistir a elas) e chega a exibir o trecho do próprio Heiser para não caricaturá-lo.
- Recusa essa leitura por três motivos: é minoritária na academia, escolhe uma tradução possível mas não a mais provável dentro do campo semântico, e sobretudo porque, segundo ele, em 100% das ocorrências gregas “portas do Hades” significa apenas morte, de modo que a promessa é que a igreja não morrerá, não que ela seja inerrante (aplicação que ele dirige de passagem à apologética católica do texto).
- Sobre o extermínio de povos no Antigo Testamento, responde que Israel funcionava como juiz físico do que hoje se expressa apenas no juízo escatológico de Jesus, que Davi representava o Messias, e que é a mesma razão pela qual existem salmos imprecatórios lá e não aqui: Mateus 5 e Romanos 12 mandam orar pelo bem do inimigo, Jesus e Estêvão oraram por perdão sob violência.
- Admite que não sabe como tornar essa explicação persuasiva a um descrente: a leitura pressupõe os olhos da fé, e sem isso resta apenas dizer “é assim que interpretamos esses textos”.
- Diz que 2Pedro 2:1 (“negando o soberano que os resgatou”) é para ele o principal texto do arminianismo, que atinge tanto a perseverança dos santos quanto a expiação limitada, e concede sem rodeios que a resposta calvinista “sofre” ali, mantendo o calvinismo pelo conjunto da obra e não por esse versículo.
- Sua leitura da passagem: o contexto é o passado de Israel (falsos profetas, anjos caídos, Noé, Ló nos versos 4 a 7), a nação inteira era “resgatada” do Egito sem que todos fossem salvos (alusão a Deuteronômio 32 e ao princípio paulino de que nem todo Israel é Israel), e o termo usado para “soberano” é δεσπότης, não κύριος, o que ele toma como indício de que o resgate em vista não é o salvífico.
- Responde que o sinal das flechas de Jônatas em 1Samuel 20 era um protocolo de segurança para o caso de Jônatas estar sendo vigiado, contingência que acabou não se realizando, e que planos que não se cumprem à risca são sinal de narrativa histórica, não de incoerência do texto.
- Sobre quem pode se chamar “reformado”, responde que um batista calvinista da linha dos batistas particulares é reformado sem ressalva, e indica um artigo de 2019 do Canadian-American Theological Review, “The Diversity of Contemporary Reformed Theology” (que ele atribui a Jamie Rubiner, grafia incerta), o qual divide o movimento em reformados confessionais, batistas calvinistas, neocalvinistas e reformados progressistas.
- Corrige a premissa da pergunta sobre Isaías 59 e Romanos 8: o pecado denunciado em Isaías 59 não é só interno (há sangue inocente, mentira e corrupção da justiça), e a correlação correta é que o pecado separa de Deus enquanto as circunstâncias sofridas, fome, perigo e morte, não separam.
- Contra a alegação de que Jesus não se autoproclamou Deus, apela a João 1:1 como base da Trindade já formulada (o Logos estava com Deus e era Deus, duas pessoas e uma divindade), à preexistência antes de Abraão, à aceitação de adoração e à confissão de Tomé abençoada por Jesus.