Episódio do quadro "O Teólogo do Twitter" em que Yago Martins comenta posts e vídeos virais, com três núcleos: a reação a um casal lésbico que se beijou em frente a uma livraria gospel na Bienal, a defesa enfática do divórcio em casos de violência doméstica, e a leitura da fala de Janja ("Lula é o verdadeiro ungido de Deus") como profanação religiosa que, diferentemente do bolsonarismo, é imposta de cima para baixo e não vai pegar nas igrejas.
talvez
porque o valor está em dois pontos isolados (a distinção entre idolatria política orgânica e imposta, e a leitura correta de 1Pedro sobre o marido descrente contra o uso pastoral abusivo do texto), diluídos em trinta minutos de reação a post de rede social e publicidade.
O que foi dito
- Abre com dez minutos de conversa solta com os funcionários Thiago Pamplona e Elias sobre o soco que levou em vídeo anterior, seguidos de publicidade longa do patrocinador de suplementos (cupom “Jesus”), sem conteúdo teológico.
- Comenta a foto do beijo lésbico diante da livraria gospel na Bienal chamando o gesto de “bobão” e comparando-o a cristãos que rasgam bandeira em parada LGBT: nos dois casos, diz, a pessoa se rebaixa ao que há de mais abjeto no campo oposto.
- Responde aos comentários da autora (“quero que todos os crentes se f…”, “o tanto de LGBT que se mata por causa do que vocês fazem”) negando que pastores mandem matar homossexuais, e classifica como “neurose autoinfligida” tratar a própria existência como ato de resistência política.
- Relata que participou de mesa na Bienal com um praticante de candomblé, um wiccano e uma monja budista, na qual pregou o exclusivismo cristão (só Cristo salva, religiões erradas existem) ao mesmo tempo em que defendeu liberdade religiosa; formula a posição como “trazer à fé por persuasão, não por imposição”, rejeitando tanto o teonomismo reconstrucionista quanto o relativismo de que todos os caminhos levam a Deus, e citando o caso de facções no Ceará que proíbem lojas de vender imagens de santos.
- Concorda, com espanto, com um vídeo de Tupirani (o “Geração Jesus Cristo” carioca) que diz a vítimas de estupro e violência doméstica que a vergonha é do agressor, e insere aí Romanos 13 para sustentar que crime não se resolve na igreja e sim no Estado, dando o número 180 na tela.
- Diz como pastor que já presenciou muitas mulheres que se recusam a denunciar o marido violento “pelos filhos” ou por vergonha, e que teme pregar no funeral de uma delas; manda quem estiver apanhando procurar ajuda hoje e sair de casa.
- Qualifica o vídeo de um pregador que diz que “a salvação é individual, cada um cuide da sua vida”: concorda com o espírito, mas corrige a imprecisão retórica mostrando que 1Pedro trata do marido descrente (que pode ser descrente e decente, alcançável pelo bom comportamento da esposa), não do marido criminoso, violento ou entregue às drogas, caso em que recomenda divórcio sem hesitar, contra o que aprendeu no seminário (“a gente nunca recomenda o divórcio”).
- Ataca de passagem David Leonardo como caso de teologia da prosperidade e “teologia coaching”, rejeitando o argumento de que número de seguidores no Instagram valide o ministério, e remete ao próprio livro sobre o tema.
- Sobre a fala de Janja no Piauí, distingue fenomenologicamente os dois cultos de personalidade: a divinização de Bolsonaro foi movimento orgânico e espontâneo das igrejas (o que rendeu seu livro “A Religião do Bolsonarismo”, de 2021, hoje esgotado porque nenhuma editora religiosa quis reimprimi-lo), enquanto a de Lula é tentativa de cima para baixo do núcleo do lulismo, via músicas e falas oficiais, que segundo ele não vai emplacar; admite que já daria um capítulo, não um livro.
- Fecha analisando um trecho do filme “Ovelhas Detetives” em que Deus é descrito como “um grande cão cordeiro invisível feito de pão que é comido aos domingos”, e usa a piada para explicar o erro de saltar da teologia bíblica para a sistemática sem respeitar o contexto literário de cada metáfora (pastor, cordeiro, ceia), inclusive quando autores diferentes usam a mesma imagem com sentidos diferentes.