a tese
Yago Martins usa o Setembro Amarelo para resenhar "Pastores pela vida" (Mundo Cristão, org. Valdir Sternagel e Daniel Guanais) e sustentar que o pastor é sujeito adoecível como qualquer outro, de modo que negar depressão, ansiedade e burnout no ministério é insensibilidade teológica, não fidelidade espiritual.
aprofundar
não
é resenha patrocinada pela Mundo Cristão, bem conduzida e pastoralmente sensata, mas sem tese teológica nova; o único ponto com alguma tração é o argumento de acomodação (a Escritura não normatiza a psicologia de sua época), que aparece de passagem e sem desenvolvimento.
O que foi dito
- Abre situando o Setembro Amarelo como campanha laica (Associação Brasileira de Psiquiatria, Conselho Federal de Medicina e CVV), e confessa que só passou a levar o tema a sério em 2020, quando Darrin Patrick, autor que ele lia sobre plantação de igrejas, tirou a própria vida deixando esposa e quatro filhos.
- Descreve o desgaste próprio de onze anos pastoreando a mesma igreja em Fortaleza: aconselhamento, dureza de coração alheia, horas de estudo isolado e a negligência de si mesmo, da esposa e dos filhos.
- Apresenta o livro como conversa de mesa, não tratado técnico, e destaca a seção “Ressonância” ao fim de cada capítulo, em que outros pastores comentam o tema com a própria experiência, o que encarna a tese de que a vida pastoral não se constrói sozinha.
- Ataca o tabu de que o Espírito Santo daria “blindagem mental” ao crente, e usa a analogia (dele) das doenças de pele tratadas como lepra no Antigo Testamento para argumentar que a Escritura se acomoda ao conhecimento médico e psicológico de seus leitores originais, e não fixa uma psicologia normativa.
- Critica diretamente os que reputam a psicologia como “conselho de Satanás”, vertente que ele associa a certo aconselhamento bíblico brasileiro.
- Elege o capítulo 4 como o que mais o marcou: o pastor não é o Messias, não é ele quem restaura ninguém em definitivo, e a prática ministerial contradiz na rotina o que todo pastor confessa na teoria.
- Liga essa megalomania a três frutos: orgulho alimentado por casos de “restauração” exibidos como prova do método, frustração quando o pecador não se arrepende, e prática abusiva em que o pastor se torna detentor exclusivo da verdade (tema do capítulo 8).
- Do capítulo 7 retira a citação que guardou: a Verdade “não se ocultou em armaduras intransponíveis”, mas dividiu mesa, gargalhou, lamentou perdas e pediu que os discípulos orassem com ele no Getsêmani.
- Dos capítulos 9 e 10 tira o argumento contra o isolamento: se nem Jesus caminhou sozinho, o pastor que nunca leva suas lutas à mesa da comunhão e só ora no quarto perde qualquer instância de correção, e testa ideias novas no púlpito ou no aconselhamento.
- Fecha com a máxima de Jordan Peterson em “12 Regras para a Vida” (cuide de si como cuidaria de alguém sob sua responsabilidade), que ele classifica como autoajuda com algo aproveitável, e recomenda a leitura do livro em grupo, com o presbitério ou a liderança local.