Reação em vídeo de um episódio em que Joe Schmid expõe como resolveu os "problemas bíblicos" a caminho do catolicismo; a anfitriã do Nerd Church (católica), o biblista Kipp Davis (Rolos do Mar Morto) e David (ex-seminarista católico, substack "Apisa Fidelis", grafia incerta) argumentam que Schmid adota uma inerrância "católica" elástica que, na prática, reimporta os clichês da apologética evangelical e dispensa a erudição crítica.
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O material crítico de Kipp Davis sobre autoria, datação de Gênesis 5 e o caráter ficcional de Josué é sólido e serve de contraponto forte ao caso Schmid que o Bruno acompanha, mas o formato é reação ao vivo, com digressões longas (sexualidade, penitenciais medievais, ataques pessoais ao estado psicológico de Schmid) que diluem o argumento; vale só se ele quiser a voz da crítica bíblica acadêmica dentro do dossiê.
O que foi dito
- Schmid define a inerrância católica como “tudo o que o escritor sacro pretendeu afirmar é protegido de erro”, dada a intenção autoral, o gênero e os recursos literários; Kipp Davis responde que a intenção autoral é justamente a coisa mais difícil de estabelecer, e que na Bíblia Hebraica não se sabe quem são os autores de nenhum dos livros.
- A anfitriã e David atacam o modelo de ocultamento divino de Ethan Muse (grafia incerta), amigo próximo de Schmid, segundo o qual Deus “afina epistemicamente” a quantidade de evidência para tornar o assentimento racional mas preservar a possibilidade psicológica da dúvida; para eles isso produz um deus trapaceiro que estragou a Bíblia de propósito.
- Kipp Davis contesta a leitura de Marcos usada por Schmid: as parábolas obscuras não filtram “buscadores sinceros”, elas cumprem um juízo sobre os que não têm ouvidos para ouvir; David acrescenta que o modelo torna Deus menos generoso epistemicamente que o demiurgo gnóstico, e que isso contradiz a definição católica de revelação pública.
- David denuncia o método de Schmid como “motivos de credibilidade” clássicos, empilhar pontos convergentes em vez de enfrentar o problema discreto, e o descreve como um colapso da distinção latina entre fides quae (conteúdo) e fides qua (ato/dom), gerando uma fé quebradiça em que questionar Fátima ou Padre Pio desfaz o conjunto.
- Kipp Davis desmonta o bordão dos “40 autores em 1.500 anos”: o número de autores é desconhecido e muito maior, a própria noção de autor é problemática no período, e 1.500 anos empurraria o início para ~1400 a.C., quando não havia Israel identificável; ele nota que o clichê é de origem protestante e cita o Master’s Seminary de John MacArthur.
- Sobre as idades de Matusalém e companhia, Davis vai além do “convenção literária de honra”: os números de Gênesis 5 têm precisão matemática intertextual e, para ele, situam o texto no período helenístico (séc. IV-III a.C.); e exige que quem alega não literalidade demonstre a alegação em vez de usá-la como escape.
- David introduz uma hierarquia dos problemas: reinterpretar as genealogias é barato, mas negar o Êxodo histórico (para o qual não há evidência arqueológica) derruba a peça de Jenga sobre a qual se apoiam soteriologia e arquétipos; lembra que Orígenes e Agostinho já tinham saída para a pré-história de Gênesis.
- A anfitriã aponta a inversão evidencial de Schmid: usar Padre Pio e Fátima (revelação privada) como base para crer na ressurreição (revelação pública) é, nos termos católicos, de trás para frente; e observa que a bibliografia publicada por Schmid se resume praticamente a Lydia McGrew, o que a leva a chamá-lo de espantosamente mal lido no assunto.
- Na violência do AT, Davis recusa a rotulagem de Schmid (“leitura superficial”): é o que o texto diz. Ele resume o consenso de que Josué é ficção propagandística ancorada no colapso da Idade do Bronze, datada por uns no século VII (expansão judaíta) e por outros no início do período helenístico contra os samaritanos, e insiste que reconhecer a ficção poupa o apologeta de defender o indefensável, embora a finalidade do texto siga sendo de despossessão.
- Fecham com uma concessão: apesar de tudo, a disposição católica de ler simbolicamente livra Schmid de virar apologista do genocídio ou da escravidão, o que a anfitriã reconhece como vantagem real sobre a alternativa fundamentalista.