a tese
Luiz Sayão responde à acusação de que a "virgem" de Isaías 7.14 é invenção cristã, mostrando que a tradução por parthénos é anterior ao Novo Testamento (Septuaginta, século III a.C.) e que o uso real de ʿalmá e betulá no hebraico não é estanque. Ele sustenta duplo referente, um sinal cumprido no tempo de Acaz e o cumprimento messiânico em Jesus.
aprofundar
talvez
o terreno é conhecido e Sayão não inova, mas os dados que ele usa são bons (Gênesis 24.16 e 43, Salmo 148.12, Joel 1.8) e o elo dinástico entre o sinal de Acaz e o cumprimento messiânico renderia um estudo próprio se Bruno quiser fechar o argumento com Hebraico e Septuaginta na mão.
O que foi dito
- Ele parte de Mateus 1.22-23, em que o grego traz parthénos, e formula a objeção na forma mais forte: o autor do primeiro evangelho teria trocado o sentido original de Isaías para encaixar no nascimento virginal.
- O primeiro dado que ele apresenta é cronológico e desarma a acusação de invenção cristã: quem verteu ʿalmá por parthénos foram judeus de Alexandria no século III a.C., num texto com mais de duzentos anos de circulação quando Mateus escreveu.
- Ele trabalha com o Antigo Testamento Poliglota, projeto que organizou (hebraico, Septuaginta, inglês e português em paralelo), e com o Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, do qual foi tradutor e organizador.
- Contra o método de atribuir um único significado fixo a uma palavra, que ele chama de leitura simplista e diz não funcionar em língua nenhuma, propõe análise semântica pelo uso em contextos diversos.
- Gênesis 24 é a peça central: no verso 16 Rebeca é descrita com naʿará mais betulá e o acréscimo de que nenhum homem a conhecera, e no verso 43 a mesma moça é chamada ʿalmá, com a Septuaginta usando parthénos nos dois casos, o que mostra ʿalmá aplicada a quem é de fato virgem.
- A contraprova vem do outro lado: no Salmo 148.12 betulot está em paralelo com os rapazes, em sentido genérico de mulheres jovens, e em Joel 1.8 uma betulá chora pelo marido ou noivo da sua mocidade, o que torna difícil fixar betulá exclusivamente em virgindade.
- A conclusão lexical dele é moderada, ʿalmá tende ao genérico e betulá tende a virgem, mas nenhum dos dois usos é fechado, de modo que a leitura de Mateus é linguisticamente compreensível.
- Sayão acrescenta um argumento cultural, que no ambiente hebraico antigo mulher muito jovem e virgem praticamente coincidiam como padrão social, e que por isso a Septuaginta e a literatura grega preferiram parthénos para evitar o mal-entendido que “mulher jovem” traria em contexto pagão.
- Sobre o contexto de Isaías, ele admite sem rodeios que o profeta fala de outra coisa, a guerra do reino do norte com os arameus contra Judá, com Acaz consultando a Deus, e sugere como candidatas a mãe do sinal a própria mulher de Isaías ou a mulher do rei.
- O argumento teológico que amarra tudo é dinástico: se Judá fosse aniquilado, a dinastia davídica e a promessa messiânica desapareceriam, de modo que o sinal (a criança nascida e a devastação dos dois reis antes de ela discernir o certo do errado) se cumpriu por volta de 732 a.C. com os assírios, e o padrão se repete, de modo analógico e agora milagroso, no nascimento do filho de Davi sob o domínio romano.