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A Verdade sobre a Arca de Noé! | Luiz Sayão

a tese

Em live de uma hora e meia, Luiz Sayão nega a notícia de que a arca de Noé teria sido encontrada e usa o caso para ensinar método: a formação de Durupınar não tem o formato que Gênesis descreve, nada foi confirmado tecnicamente, e a expectativa de achar madeira leve preservada por cinco mil anos no alto de uma montanha é implausível. No caminho ele defende um dilúvio antropologicamente universal mas geograficamente localizado.

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é a melhor aula de método que o Sayão fez em meses e cai exatamente no terreno do Bruno (tevá e gofer, bnei elohim, cronologia massorética contra a da Septuaginta, números como convenção retórica, universalidade antropológica contra geográfica), com a vantagem de ele aplicar o princípio de entender a literatura e o pano de fundo antes de interpretar, que é discutível em pontos mas está bem argumentado.

O que foi dito

  • Ele situa o projeto atual em Durupınar, nas montanhas do Ararate, conduzido por uma universidade turca com organização estrangeira (Noah’s Ark Scans), e esclarece que o sítio é estudado desde 1959, quando recebeu o nome de um capitão turco, não sendo novidade nenhuma.
  • As três atitudes possíveis que ele descreve organizam a aula: o cético que torce para nada ser achado, o entusiasta que força a barra, e a terceira, que ele defende, de interesse genuíno porque qualquer conexão real ilumina a compreensão dos textos antigos.
  • Os exemplos de erro de identificação são os melhores do bloco metodológico: o tanque de Siloé, cujo local apontado por muito tempo era bizantino, com o tanque romano só escavado a partir de 2004, e Betsaida, atribuída a um sítio que se mostrou distante do correto.
  • O argumento lexical é o centro da crítica: “arca” traduz tevá, palavra que não evoca embarcação e é a mesma usada para o cesto de Moisés em Êxodo, de modo que a estrutura de Durupınar, que parece um barco (ele lembra um drácar viking), justamente não se parece com o que o texto descreve.
  • A madeira de gofer, quase sempre traduzida por cipreste, é madeira leve, apropriada para flutuar e inapropriada para durar milênios, e ele registra que uma sugestão talmúdica de cedro é improvável e que alguns preferem “madeira resinosa”. As medidas de Gênesis 6 (300 por 50 por 30 côvados, cerca de 135 por 22,5 por 13,5 metros, três andares e porta lateral) são o que alvoroçou o público, por coincidirem grosseiramente com a extensão da formação turca.
  • O argumento de preservação é um cálculo de desgaste: a pirâmide de Quéops, de pedra maciça e datação equivalente ao horizonte do dilúvio, perdeu cerca de sete metros de altura, de 146 para 139, e seria absurdo esperar melhor sorte de uma estrutura de madeira leve.
  • Sobre a datação do dilúvio ele percorre as opções: a tese do degelo da última era glacial (que ele rejeita por não casar com os relatos mesopotâmicos nem com a estratigrafia), a aritmética literal das genealogias (que dá resultados distintos pelo texto massorético e pela Septuaginta, com diferença de 600 a 700 anos, a versão grega apontando para cerca de 3130), e a proposta de William Ryan e Walter Pitman sobre degelo e elevação do mar (ele diz Mediterrâneo, embora a tese conhecida desses autores seja a inundação do Mar Negro).
  • A evidência positiva que ele aceita combina três fios: a estratigrafia mesopotâmica de camada seca, camada encharcada e camada seca, divulgada por Werner Keller em “E a Bíblia tinha razão”, os relatos paralelos (épico de Atrahasis, a epopeia de Gilgamesh com Utnapishtim, Deucalião e Pirra na Grécia, tradições indianas), e o argumento de que escrever na antiguidade era caro e raro, de modo que um relato preservado por gerações precisa ter pertinência com a realidade. Ele cita Flávio Josefo sobre remanescentes da arca vistos na Armênia e usados como amuletos, e um historiador babilônico, Beroso, que ele situa no século VI a.C. (a datação usual é o século III a.C.).
  • O argumento hermenêutico sobre a extensão do dilúvio é o mais importante da live: “cobriu todas as montanhas debaixo do céu” seria universalidade antropológica, não geográfica, por analogia com Paulo dizendo em Colossenses 1 que o evangelho foi pregado no mundo inteiro quando se refere ao mundo romano. Ele soma as dificuldades físicas (nove quilômetros de coluna de água, cinco vezes o volume dos oceanos, mistura de água doce e salgada) e as de capacidade (cada andar com no máximo 4,5 metros não acomoda elefante nem girafa, o texto não menciona animais vindos de outros continentes, e dizer que entraram filhotes é forçar o texto, que fala de um casal). Ele atribui essa leitura a John Whitcomb e menciona Adauto Lourenço como quem a adotou no Brasil.
  • Nas perguntas ele corrige três coisas com firmeza: bnei elohim em Gênesis 6 são homens poderosos, não anjos, porque anjos não se casam, pureza e impureza aparecem ali porque Gênesis foi redigido no contexto do Pentateuco e não por Noé, e os 120 anos não são duração de vida mas prazo até o dilúvio, como mostram Abraão e Jacó. Ele também explica os números altos do Antigo Oriente Próximo como convenção honorífica e hiperbólica (a lista real suméria, os reis de vinte mil anos, a palavra para mil que originalmente significava agrupamento, os 120 mil animais de Salomão), e nega que achar a arca seria sinal dos últimos dias, porque o paralelo em Mateus é a despreocupação das pessoas, não a arqueologia.

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