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ICEBERG DO ATEÍSMO + DEFENDENDO FRANCISCO SUÁREZ

a tese

Live de mais de quatro horas de Matheus Fugita, dividida entre a reação a um vídeo que organiza o "iceberg do ateísmo" (das falas de superfície à filosofia analítica da religião) e a defesa de Francisco Suárez contra um canal tradicionalista católico que o acusa de condenação papal e de ter aberto caminho ao modernismo.

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apesar do formato (quatro horas de live com leitura de chat, superchat e rixas de canal), porque três coisas aqui são suas: o mapa do ateísmo analítico contemporâneo é útil como bibliografia comentada, sobretudo Schellenberg no ocultamento divino e a variante da injustiça divina, que é primo próximo do argumento evidencial de Rowe que você trabalhou no TCC; o ceticismo modal de van Inwagen reaparece aqui pela segunda vez na mesma rodada (David Ribeiro o usou com Felipe Leon) como a objeção viva contra premissas modais, e o molinismo depende justamente desse tipo de raciocínio; e a defesa de Suárez, embora aqui gire em torno do virtualmente revelado e não da ciência média, coloca na mesa o adversário tradicionalista com que qualquer simpatizante do congruismo suareziano terá de lidar.

O que foi dito

  • Antes dos blocos principais, responde por superchat a uma pergunta sobre a legitimidade do Estado contra a posição anarcocapitalista, com argumento que chama de kantiano: sem uma instituição única detentora do poder de julgar e coagir num mesmo território, a mediação entre posições em conflito é impossível por definição, e ou se cai na lei do mais forte ou as tais justiças privadas viram elas mesmas Estados ilhados.
  • Também retoma a polêmica sobre escravidão no Antigo Testamento contra um vídeo do canal Axiomático, sustentando que a legislação de Deuteronômio sobre não devolver o escravo fugitivo vale também intranacionalmente, e não apenas para escravos vindos de outras nações, e que vários autores sustentam essa leitura, contra a afirmação do adversário de que o ponto seria praticamente indisputado na academia.
  • No bloco do iceberg, o material é organizado em cinco categorias que ele elogia: falas recorrentes, críticas válidas, autores e livros possivelmente lidos, argumentos fundamentados e argumentos improvisados.
  • Camada de superfície: Richard Dawkins e a fase neoateísta de 2010 a 2012, com “Deus, um Delírio” e a tese da hipótese divina como hipótese científica derrotada; a ciência refuta Deus; a teoria da evolução refuta Adão e Eva; quem criou Deus; a Bíblia é contraditória (a que ele responde que a diferença de perspectiva entre os evangelhos resolve a maioria dos casos); a igreja é contra a ciência.
  • Camadas intermediárias: Antony Flew e “A Presunção do Ateísmo”, que fixou o ateísmo como posição padrão até prova em contrário, com sua conversão ao deísmo em 2004 aos 81 anos; o universo eterno e o modelo estacionário de Bondi, Gold e Hoyle abandonado após a radiação cósmica de fundo; o argumento da divergência religiosa, com a versão acadêmica em Schellenberg e Draper e a resposta pluralista de John Hick; Feuerbach e a teologia como antropologia, herdada por Marx e pelo Freud de “O Futuro de uma Ilusão”; e o princípio de Carl Sagan sobre alegações extraordinárias, que ele observa ter sido contestado, pois a evidência precisa ser suficiente e não necessariamente proporcional.
  • Registra também a discussão sobre moralidade sem Deus, mencionando David Ribeiro como caso de quem tenta uma fundamentação objetiva, e o argumento evolucionário contra o naturalismo de Plantinga como contragolpe.
  • Águas profundas: Michael Martin, com a coletânea de ensaios e “Atheism: A Philosophical Justification”; Finkelstein e Silberman em “A Bíblia Desenterrada” contra a historicidade do êxodo e pela origem cananeia de Israel, ponto sobre o qual Fugita admite que precisará apelar sobretudo à evidência interna; a crítica erudita às cinco vias, com Graham Oppy, Joe Schmid e Alex Malpass entre os autores citados; e os estudos sobre divinização de Jesus como processo histórico.
  • Fundo do iceberg: o argumento do ocultamento divino de Schellenberg, apresentado em cinco proposições (Deus perfeitamente amoroso está aberto a relacionamento pessoal com todos, o que exige crença em sua existência, mas existem descrentes não resistentes), com a formulação madura de 2015, tema que Fugita anuncia que tratará na sua imersão do mês seguinte, incluindo as respostas de Swinburne; o argumento da injustiça divina, variante evidencial do mal focada na distribuição arbitrária de bens e males; o argumento do sofrimento animal, que ele reconhece como um dos mais difíceis para o teísmo, embora diga resolvê-lo por sustentar que a morte animal só começou depois do pecado; e o ceticismo modal de Peter van Inwagen, usado para bloquear premissas modais de argumentos teístas como o ontológico e o da mente desencarnada.
  • Discute ainda a distinção técnica entre ateísmo psicológico (estado mental) e ateísmo proposicional (atitude epistemológica de rejeitar a proposição “Deus existe”), notando que autores como Oppy, Draper e Schmid rejeitam a divisão popular entre ateísmo fraco e forte.
  • No segundo bloco, reage com o convidado Carlos a um vídeo tradicionalista dividido em três partes: a suposta condenação de Suárez pelo Santo Ofício, os erros de sua filosofia e a promoção de Suárez pelos jesuítas do século XX contra as 24 teses tomistas.
  • O vídeo adversário corrige a si mesmo dizendo que não foi Inocêncio XI e sim Clemente VIII quem condenou Suárez, que a queima de livros dele foi ordem do rei da França por causa da tese do tiranicídio, e que a condenação por Inocêncio XI teria sido apenas implícita, por proposições laxistas.
  • O ponto doutrinal central é a noção suareziana de virtualmente revelado: se a igreja define como de fé divina uma verdade apenas deduzida da revelação, isso equivaleria a dizer que a revelação não se encerrou com a morte do último apóstolo, tese condenada como modernista na proposição 21 do decreto Lamentabili de Pio X.
  • Fugita responde que o suareziano diria que a igreja não acrescenta revelação nova, apenas manifesta o caráter revelado de uma proposição que já era crida, acrescentando um elemento testemunhal, e que a leitura de Marín-Sola sobre Suárez é plenamente contestável.
  • Aponta erro histórico dos adversários: o Cardeal de Lugo não era suareziano, tinha influência de Suárez mas teses próprias; suarezianos de fato seriam Losada, Mendive e o Francisco Soares português.
  • Devolve a acusação de vagueza perguntando qual tomismo exatamente a igreja teria chancelado, já que o tomismo tradicional, a leitura suareziana e as revisões do século XX em Cornelio Fabro e Étienne Gilson sustentam teses opostas entre si.
  • Fecha o argumento notando que Suárez pertence às tradições peripatéticas modernas e sustentando, contra a alegação de clareza absoluta de Tomás de Aquino, que justamente a falta de sofisticação técnica do texto tomista, anterior à escolástica dos séculos XV e XVI, é o que explica a multiplicidade de interpretações e a necessidade de os tomistas posteriores lapidarem e blindarem suas teses.

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