Live de reação em que Matheus Fugita e o convidado Carlos (especialista em escolástica, sobrenome não dito) assistem à aula de Mateus Benites sobre a metafísica de João Duns Escoto e sustentam que praticamente todo o conteúdo está errado, com a inversão mais grave sendo a de apresentar Escoto como o revolucionário que abre a modernidade quando o revolucionário do século XIII é Tomás de Aquino.
talvez
o conteúdo de correção histórica e conceitual é de primeira (Escoto conservador e Tomás revolucionário, haecceitas, participação, voluntarismo, Craig e Eutífron), mas vem diluído em 79 minutos de deboche sobre um alvo fraco, então só vale com a transcrição na mão e indo direto aos pontos.
O que foi dito
- A correção estrutural vem logo: Carlos sustenta que Escoto é o filósofo conservador, que quer preservar o paradigma agostiniano e franciscano anterior à chegada de Aristóteles, preferindo leituras avicenianas às averroístas, enquanto Tomás é quem rompe paradigmas e faz a guinada aristotélica. Carlos diz ter escrito isso na introdução de um livro de Leandro Bezerra.
- Desmontam a afirmação de que o método científico veio de Escoto, Roger Bacon e Guilherme de Ockham: Escoto não era filósofo da natureza nem físico, e os nomes da física medieval são Grosseteste, Bacon e Alberto Magno. Notam ainda a incoerência interna da fala de Benites, que diz num mesmo trecho que o método não existia e que existia por causa desses autores.
- A tabela de quatro colunas (realismo exagerado, realismo moderado, conceitualismo, nominalismo) é tratada como material gerado por IA com fontes trocadas: Platão e Anselmo como representantes do realismo exagerado, e Escoto colocado na mesma caixa de Tomás, quando o realismo escotista é mais forte que o tomista e o adversário de Ockham nessas controvérsias era Escoto, não Tomás.
- O erro de ofício apontado é o conceito de universal: desde a Isagoge, universal é o que se predica de muitos, de modo que falar do “universal de Mateus Benites” é incoerência, e Benites não demonstra conhecer o debate da contração da natureza comum nem a divergência real entre Tomás e Escoto sobre individuação.
- Carlos insiste num ponto básico de Aristóteles e dos medievais: o universal não é abstraído da coisa individual, mas das espécies sensíveis, pela via do fantasma, e isso não distingue escola nenhuma, é aristotelismo elementar.
- Sobre a leitura dos dois mundos em Platão, dizem que é a leitura polemizante de Aristóteles contra Platão, hoje abandonada por qualquer manual, porque ignora a teoria da participação, que é justamente o que liga universal e singular. E acrescentam que Escoto tem teoria da participação, herdada de Agostinho e lida no Liber de Causis e no pseudo-Dionísio, ao contrário da tese de Benites de que Escoto a nega. Carlos diz preferir João Escoto Erígena ao pseudo-Dionísio como intérprete da participação.
- Corrigem a haecceitas: ela não é uma formalidade, é a última contração da natureza comum, e Benites invocou distinção formal sem nunca explicar o que é formalidade. Também apontam que ele cita o artigo “Universals and Individuation” de Timothy Noone, no Cambridge Companion organizado por Thomas Williams, e distorce o intérprete, observação reforçada por David Ribeiro no chat.
- Quanto à cognição intuitiva, argumentam que o problema de como o intelecto aristotélico, que tem o universal por objeto próprio, conhece o singular, é problema de todo aristotélico, com solução própria em Capreolus, Caetano, Ferrariensis, Báñez, João de São Tomás e Suárez; que João de São Tomás usa a mesma expressão cognitio intuitiva; e que Suárez vai além de Escoto ao inverter os polos, conhecendo primeiro o singular. Ou seja, nada ali é privilégio escotista.
- No bloco do voluntarismo desafiam Benites a achar uma linha de Escoto autorizando que Deus crie um triângulo quadrado: isso é a doutrina cartesiana da onipotência, e Ockham nega explicitamente que Deus faça contraditórios. Separam duas teses que Benites funde: que Deus nada deve à criatura (posição comum, de Agostinho a Tomás) e que Deus possa criar contradições. Negam também que Escoto resolva o dilema de Eutífron pela vontade divina, já que identifica Deus com a bondade, e corrigem a atribuição a William Lane Craig, que funda o bem na natureza divina e não num ato de vontade (David Ribeiro acrescenta no chat que a teoria do comando divino de Craig é a versão modificada, feita para evitar voluntarismo radical).
- Na ética, rejeitam o contraste entre um Tomás aristotélico das virtudes e um Escoto proto-deontologista quase kantiano: Escoto comentou o Organon na juventude, conhece a Ética a Nicômaco, tem textos sobre caridade, prudência e temperança, e a diferença concreta é miúda (para Tomás hábito bom e hábito mau são distintos, para Escoto podem coexistir no mesmo sujeito). Acrescentam que há intérpretes que leem o próprio Tomás como proto-deontologista e que dever e virtude não se excluem.
- A crítica de método é explícita: se o objetivo é refutar Escoto, deve-se ler os melhores escotistas (citam Poncius, Mastrius e Krisper), hoje acessíveis mesmo em latim com ajuda de IA, e não recortes de uma coletânea contemporânea. Carlos conclui que não houve nos cerca de 50 minutos de aula um único ponto bem articulado e chama Benites de intelectualmente incapaz; Fugita lembra o debate que teve com ele e a tese de David Ribeiro de que Benites seria analfabeto funcional.
- Comentam ainda o desvio final da aula, em que Benites salta da recepção católica de Escoto para crítica textual bíblica no registro de Bart Ehrman (Paulo não sabia que escrevia Bíblia, o texto como retalho). Carlos responde que a antiguidade e a Idade Média já comparavam manuscritos (Agostinho entre eles, e depois Poggio Bracciolini e Niccolò Niccoli na recuperação do De rerum natura), e Fugita contrapõe 1 Coríntios, onde Paulo invoca mandamento do Senhor, e a passagem em que Pedro arrola as cartas de Paulo entre as escrituras. Anotam por fim que Benites chama Guilherme Freire, Marcelo de Andrade e Carlos Nougué de fanáticos disfarçados de intelectuais que não leram Graham Oppy nem William Rowe, e recomenda Michael Shermer, enquanto ele mesmo, segundo eles, leu mundos possíveis em Oppy como se fossem universos que se influenciam causalmente.