Radar

radar · Filosofia & teologia

MATEUS CIMINI NO NOSSO RECREIO PROTESTANTE

a tese

Live de mais de três horas em que Matheus Fugita reage ao vídeo do católico Mateus Cimini que traça uma genealogia do "jovem místico" e da Nova Era a partir da Reforma. Fugita aceita que há correlação histórica entre protestantismo e modernidade, mas nega o nexo causal e desmonta o argumento mostrando que Cimini ataca um espantalho e ignora as fontes protestantes.

aprofundar

talvez

a tese genealógica que culpa a Reforma pela modernidade e pela Nova Era é polêmica recorrente e vale conhecer a réplica, e o contraexemplo de Voetius contra Descartes é munição boa, mas são três horas de react com muita interação de chat, de modo que só compensa pelos trechos de argumento, não pela peça inteira.

O que foi dito

  • A tese do vídeo reagido é que a Reforma é o ato fundador da modernidade e abre a porta para subjetivismo, cientificismo, feminismo e Nova Era, com Lutero funcionando como precursor até do “me identifico como mulher” pela via da sola fide.
  • Fugita responde primeiro no ponto da caricatura: o testemunho de Cimini descreve a própria experiência neopentecostal e a generaliza como protestantismo, embora nenhum protestante se considere autoridade exegética pessoal no sentido dos lugares teológicos, sendo apenas sujeito da interpretação como qualquer católico diante do texto.
  • Sobre a acusação de que o protestantismo dispensa religião organizada e sacerdócio, ele aponta que existem denominações, igrejas visíveis e disciplina, que luteranos reivindicam sucessão apostólica, e que o próprio catolicismo tem uma versão de sacerdócio universal distinta do ministerial, de modo que a leitura de Coré, Datã e Abirão como prefiguração da tese protestante não se sustenta.
  • O argumento histórico mais forte da live é o contraexemplo de Gisbertus Voetius, reitor em Utrecht, que combateu ferozmente o cartesianismo em disputas públicas, defendendo as causas aristotélicas e o composto hilemórfico contra os alunos influenciados por Descartes. Fugita usa isso para mostrar que a escolástica reformada operou como freio, não como motor do subjetivismo, e lembra que havia correntes antiaristotélicas dentro do próprio catolicismo.
  • Contra a alegação de que o protestantismo lê o texto alheio a toda tradição, ele lista o uso corrente de Agostinho e Irineu na literatura protestante, a aceitação praticamente unânime dos quatro primeiros concílios ecumênicos e a própria analogia da fé (ler o obscuro à luz do claro) como herança agostiniana.
  • Quando Cimini afirma que a Bíblia não manda o cristão ler a Bíblia e que isso é tradição de homens, Fugita abre o texto ao vivo: Deuteronômio 6 (ensinar aos filhos, falar ao deitar e ao levantar, escrever nos umbrais), Josué 1.8 (meditar de dia e de noite) e Colossenses 4.16 (a carta lida na igreja e trocada com Laodiceia).
  • Na questão da autoridade ele faz a distinção que organiza a resposta, entre autoridade como norma constituída (a Escritura, à qual se apela) e autoridade como aplicador da norma (a igreja, que interpreta e vincula seus membros), negando que o protestantismo seja a anarquia de cada um por si.
  • Sobre perspicuidade ele qualifica sem recuar: a doutrina diz que uma pessoa bem disposta alcança pelos meios ordinários o essencial normativo e os pilares (Trindade, divindade de Cristo, encarnação), não que toda passagem seja clara. Cita Whitaker respondendo a Belarmino e concedendo passagens difíceis, com Daniel 11 como exemplo, e dá a própria leitura do oitavo rei de Apocalipse como fusão das cabeças de Daniel.
  • A parte americana do vídeo reagido se apoia em Harold Bloom e na tese da “religião americana” gnóstica, com os puritanos, Cotton e Increase Mather, Ezra Stiles, John Adams e Jefferson supostamente todos imersos em cabala e hermetismo, com remissão ao livro de Brian Ogren. Fugita concede que havia figuras com interesse na cabala, mas chama de salto a generalização sem documentação, e observa que Bloom era crítico literário virando autoridade em história da religião.
  • A objeção mais específica dele é adventista e vale como dado: o movimento espiritualista e mediúnico do século XIX nos Estados Unidos, ligado a pautas abolicionistas e de direitos da mulher, foi combatido justamente pelos adventistas, com Ellen White recusando a associação apesar de também relatar visões, e a doutrina do novo derramamento do Espírito como prova foi refutada nos debates adventistas da época. Ou seja, a tradição que Cimini aponta como herdeira do gnosticismo foi uma das principais opositoras dele.
  • No fecho, Fugita confessa cansaço e encerra sem terminar o vídeo (deixa a continuação para outro dia), e anuncia o projeto de uma série de lives para divulgar a escolástica reformada e protestante, nomeando Voetius, Vermigli, Turretini, Baxter, Chemnitz e outros, dizendo-se talvez o único divulgador protestante brasileiro do tema fora de Tourinho.

Mais de Matheus Fugita

30 no radar
09/10MATHEUS BENITES DISTORCENDO A CONTROVÉRSIA DOS UNIVERSAISaprofundar: talvez09/10DESABAFO E FOFOCASaprofundar: não06/10CHAMEI MEU AMIGO HINDU PRA UM PAPO SOBRE RELIGIÃO | Feat. Rian Lobatoaprofundar: sim05/10APURAÇÃO DOS VOTOS | Vamos rir do nosso futuro juntosaprofundar: não04/10MATEUS CIMINE PALPITANDO SOBRE PROTESTANTISMO | Parte 2aprofundar: não

todos os 30 vídeos de Matheus Fugita no radar →