a tese
Segunda parte do react de Matheus Fugita ao vídeo de Mateus Cimini, cobrindo o trecho final da genealogia (puritanos, adventismo, contracultura dos anos 1960, Nova Era) e a conclusão do autor, de que não é protestante porque não é Nova Era. Fugita responde que a peça é estereótipo encadeado por frases de efeito, e passa a reagir também a um vídeo brasileiro sobre o crescimento evangélico.
aprofundar
não
o conteúdo argumentativo novo é pequeno em relação à duração (mais de quatro horas), o essencial já estava na parte 1, e o que resta de interessante aqui é a verificação da citação de Lutero e a observação sobre o parágrafo 818 do Catecismo, que se resolvem em cinco minutos.
O que foi dito
- O vídeo reagido chega ao ponto de chamar os puritanos de primeiros hippies em solo americano. Fugita responde com o que os puritanos de fato tinham, disciplina comunitária, catequese, autoridade eclesiástica e critérios de ortodoxia, indicando as obras de Richard Baxter como contraprova.
- A tese de Cimini de que o protestante não tem vantagem epistemológica sobre o adepto da Nova Era, porque ambos dizem que a Igreja não entendeu o Cristo verdadeiro, é devolvida com um argumento de definição: definido assim, por protesto contra a alegação de Roma, o rótulo engole ortodoxos e anglicanos, que têm sucessão apostólica e sofreram cismas antes e fora da Reforma.
- Sobre o pressuposto de que discordância é efeito da Reforma, Fugita aponta o Concílio de Jerusalém: a divergência nasce entre os próprios apóstolos, e ter magistério infalível não impediu que grupos reivindicassem a interpretação correta e a sucessão legítima.
- A conclusão do vídeo reagido é estruturalmente curiosa e Fugita explora isso: Cimini sustenta que não é possível conhecer Jesus sem sucessão apostólica, ao ponto de dizer que se a Igreja Católica fosse falsa Cristo deixaria de existir, e então lê o Ocidente como exílio babilônico e a Igreja Católica como arca remanescente, com o protestantismo no papel das tribos perdidas.
- A objeção de Fugita a essa analogia é tripla e boa: numericamente estranha (a Igreja Católica se põe como minoria remanescente sendo a maior tradição), historicamente estranha, e teologicamente incoerente com o próprio Vaticano II, que trata protestantes como irmãos separados autenticamente cristãos, ponto que ele cobra citando o parágrafo 818 do Catecismo.
- O melhor momento de método é uma verificação ao vivo: diante da citação atribuída a Lutero (“melhor que os tiranos sejam cem vezes injustos com o povo do que o povo cometa uma única injustiça contra os tiranos”), referenciada à edição de Weimar, Fugita suspeita de adulteração ou descontextualização, pede ao chat que confira, e o chat volta com o contexto, Lutero falando de revolta armada e não de crítica verbal. Ele concede que Lutero erra em outros momentos e tende às elites (o eleitor da Saxônia, Filipe de Hesse), mas sustenta que a citação como posta é absurda.
- Ele também desconta a fonte historiográfica do vídeo, Erik von Kuehnelt-Leddihn e “Liberdade ou Igualdade”, observando pelo chat que o próprio autor argumenta o contrário, que o protestantismo barrou a formação de estados totalitários.
- A segunda metade da live muda de alvo e reage a um vídeo sobre o crescimento evangélico no Brasil, com a cronologia de 1810 (o tratado de D. João VI com a Inglaterra, que permitia comunidades protestantes mas proibia a abertura de igrejas), a liberdade após a proclamação da República, e os números citados, de 1% da população até os anos 1950 para 26,9% hoje, contra 56,7% de católicos.
- A alegação de que a imunidade tributária do artigo 150 mais a livre interpretação da Bíblia explicam o crescimento sem fiscalização é o que mais o irrita: ele responde que em igreja protestante de fato o membro não legisla por si, se submete à autoridade local, a disciplina de uma igreja é reconhecida pela outra, e os meios ordinários da graça passam pela comunidade. Ele próprio critica as igrejas de parede preta e o show, mas separa isso do protestantismo histórico.
- A live tem muito ruído: metas de doação, piadas sobre a idade dele, dores nas costas de sete horas de transmissão, trechos de pregação do pastor Tupirani amaldiçoando ministros do Supremo (comprados por doação do chat), eleição do dia seguinte e provocação de debate com outro youtuber. Fugita também conta que leu o Concílio de Trento inteiro por causa de Martin Chemnitz, que respondeu ao concílio ponto por ponto.