Live de 3h40 em que Matheus Fugita entrevista Rian Lobato, hindu brasileiro da escola Pratyabhijñā (Trika, o chamado shivaísmo da Caxemira), que apresenta o hinduísmo como a última grande tradição pagã viva e sustenta que o paralelo mais forte entre hinduísmo e cristianismo está na teologia do logos, com o prólogo de João parafraseando quase literalmente um texto védico sem que haja evidência de contato histórico.
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É o material mais denso da varredura e toca direto o trabalho do Bruno: o paralelo Vāc / logos tem consequência exegética para o prólogo joanino, o par puruṣamedha / Gênesis 22 é questão de teologia bíblica, e a discussão de deísmo estético, Draper e Lonergan é filosofia da religião. Duas ressalvas: a legenda automática destrói a grafia dos termos sânscritos e dos autores, e as citações védicas chegam pela voz do convidado, via Woodroffe, autor de 1920 com agenda própria, de modo que qualquer uso exige conferir as fontes primárias. A gravação também sofre com dezenas de quedas de conexão do convidado.
O que foi dito
- Abre recitando um mantra em sânscrito e narra a própria trajetória: família católica com camada espírita (a mãe crê em reencarnação e nega a ressurreição dos mortos), pai interessado em hermetismo e cabala, formação em Direito com TCC sobre neurociência e filosofia, fase naturalista e cientificista (cita o casal Churchland), depois idealismo alemão e filosofia analítica (foi a Gabi quem o empurrou para Kant), depois neoplatonismo pagão (Plotino, Jâmblico, Proclo) e finalmente hinduísmo.
- Explica por que abandonou o neoplatonismo como prática: não há linhagem sacerdotal helênica sobrevivente, e qualquer espiritualidade ali seria reconstrucionismo; o hinduísmo oferecia a mesma metafísica com transmissão viva.
- Corrige a terminologia: “hinduísmo” é exônimo persa derivado do rio Indo, o endônimo é Sanātana Dharma, religião eterna, e a pedra de toque da ortodoxia é aceitar a revelação védica, não um fundador.
- Explica por que “monismo” é tradução ruim de advaita: o Advaita Vedānta nega três tipos de diferença (entre indivíduos da mesma classe, entre classes diferentes, e interna entre todo e partes), e sistemas como o de Espinoza, chamados monistas, aceitam o terceiro; “não dualidade” preserva a precisão negativa.
- Conta por que migrou do Advaita para o Pratyabhijñā: só ali a não dualidade incorpora a diferença por uma lógica dialética, que ele lê como continuidade com Hegel e com o insight que considera o mais belo do cristianismo, o trinitarismo. Hegel entende o cristianismo como religião do absoluto por ter capturado a mediação, não apenas identidade e diferença.
- Desenvolve o contraste central da palestra: para os gregos a ciência paradigmática que inspira a reflexão sobre o logos é a matemática e a lógica (Pitágoras, Platão, Parmênides e o princípio de não contradição); na Índia é a linguagem (gramática, etimologia, prosódia), com Bhartṛhari no ápice, e daí o Śabda-brahman, o absoluto sob a forma de som, e Vāc, a palavra divina personificada, cognata de vox.
- Lê um trecho longo de John Woodroffe (Arthur Avalon), “A Guirlanda de Letras”, que alinha João 1:1 (“no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”) a um texto védico em que no princípio era Brahman, com quem estava Vāc, chamada “a segunda” porque emana dele como śakti. Woodroffe admite não ser impossível que Fílon, o neoplatonismo e João tenham dívida com a Índia, mas não afirma, e Rian também não: considera a evidência inexistente e prefere ler como revelações paralelas de uma mesma realidade.
- Fugita contrapõe que Paulo citando epicuristas e estoicos mostra que a inspiração pode operar por empréstimo, o que tornaria a hipótese de influência menos escandalosa.
- Traz um segundo paralelo textual: no Śatapatha Brāhmaṇa, o puruṣamedha é interrompido por uma voz que proíbe a deidade de consumir as vítimas humanas, “porque então o homem devoraria o próprio homem”; as vítimas são soltas e substituídas por frutos, estrutura que ele compara a Gênesis 22, lendo ambos como marcadores da classe sacerdotal abolindo o sacrifício humano herdado de substratos tribais.
- Para a existência de Deus apresenta um argumento transcendental de Utpaladeva e Abhinavagupta a partir do fato da consciência e da inteligibilidade do real, e o aproxima explicitamente da fórmula de Bernard Lonergan: se o real é completamente inteligível, Deus existe; o mediador dessa comparação é David Peter Lawrence.
- Afirma a incompatibilidade soteriológica: nenhuma forma ortodoxa de cristianismo (católica, luterana, ortodoxa oriental) se reconcilia com a reencarnação das tradições dármicas, e só um cristianismo gnóstico, valentiniano, poderia dialogar; menciona o cristão anônimo de Rahner como leitura liberal, mas nota que ali a salvação continua vindo por Cristo.
- Distingue a doutrina do avatāra da encarnação cristã pela cosmologia de fundo: universo eterno e cíclico (ele prefere “espiralado”, porque há acumulação e não repetição vazia) em ciclos de criação, manutenção e dissolução, logo múltiplas encarnações, contra a história linear cristã; ressalva que o avatarismo é central no vaishnavismo, não no shivaísmo dele.
- Nega que o problema central do hinduísmo seja o pecado: é ajñāna, a ignorância, e pāpa ou carma negativo funciona como causalidade impessoal do próprio tecido da realidade, não como julgamento de um Deus ofendido. Quanto à teodiceia, reconhece que o carma explica a distribuição de males particulares mas não por que há mal em primeiro lugar, acha as defesas de livre-arbítrio pouco convincentes, trata o problema evidencial do mal como decisivo contra muitos sistemas, e sustenta que o Trika escapa porque se aproxima do que Paul Draper chama de deísmo estético: o absoluto manifesta līlā, jogo divino, sem nada a ganhar ou perder, mais narrador cósmico que juiz.
- Sobre o Buda: nasceu em família hindu da casta kṣatriya, aprendeu com renunciantes da linha dualista puruṣa/prakṛti e rompeu com eles no caminho do meio entre eternalismo e aniquilacionismo; entre as leituras hindus, descarta como ufanismo a apropriação nacionalista, apresenta a tese vaishnava do Buda como avatar de Vishnu enviado para afastar os indignos, e prefere o inclusivismo de Abhinavagupta, que trata as outras tradições como revelações parciais numa hierarquia. Desmonta como romantismo a história de que Śaṅkara extinguiu o budismo da Índia (o declínio veio da perda do patrocínio real e da destruição de Nālandā), mas considera convincente a crítica dele ao anātman pelo problema da unidade sintética da consciência, paralelo ao problema em Hume.
- Sobre Cristo, segue Woodroffe e o lê como figura de sannyāsa, renúncia e realização espiritual altíssima, sem se comprometer quanto à encarnação divina; menciona um Purāṇa tardio e interpolado em que Cristo aparece como Īśa-putra ensinando o dharma aos bárbaros. Encerra divulgando um curso pago de nove a dez meses sobre filosofia indiana, aos domingos, com o telefone dado ao vivo.