Não é bem um debate contraditório, mas uma conversa convergente entre dois biblistas (Jonathan "Johnny" Rowlands, do St. Mellitus, e David Moffitt, de St. Andrews) que sustentam que a expiação não se esgota na cruz: a obra expiatória de Cristo, lida à luz do sacrifício levítico e de Hebreus, só se completa na ressurreição e ascensão, quando o Filho apresenta a si mesmo (sua vida, não sua morte) ao Pai no santuário celeste.
sim
porque toca de frente a doutrina da expiação (interesse declarado do Bruno) com exegese séria de Levítico e Hebreus, a tese Moffitt (ressurreição/ascensão como parte da expiação) tem peso acadêmico real e dialoga com a crítica à PSA que circula na tradição dos "irmãos".
O que foi dito
- Moffitt reconstrói a etimologia de “atonement”: Tyndale cunhou o termo (at-one-ment, reconciliação) para traduzir a linguagem paulina de Romanos 5:11 e 2Coríntios 5:18-20, e depois reusou a mesma palavra para o verbo levítico do sacrifício (algo como purificar), criando uma confusão conceitual entre reconciliação e ritual sacrificial que persiste até hoje.
- Rowlands expõe a substituição penal (PSA) como o modelo dominante nas igrejas ocidentais (Jesus paga a pena de morte no lugar do pecador), reconhece que ela ancora bem a justiça de Deus, mas defende que a expiação é caleidoscópica e que a igreja falha em sustentar vários modelos ao mesmo tempo.
- Sobre a base bíblica da PSA há discordância matizada: Moffitt aceita Isaías 53 como penal e substitutivo (o servo carrega os pecados de muitos e sofre a morte), rejeitando porém a “satisfação” feudal de Anselmo; Rowlands é mais cético, cita Isaías 53 e 2Pedro 2 como possíveis, e menciona os livros que negam a PSA na Escritura (Steve Chalke, Andrew Wilson em “Lamb of the Free”, e o de Rillera).
- Ambos deslocam o eixo de “expiação = perdão de pecado” para “expiação = restauração/purificação”: em Levítico 16 (Yom Kippur) o próprio templo é expiado sem que haja pecado nele, o problema de fundo em Levítico é a impureza contagiosa (ligada à morte, corpos, perda de fluidos), não a culpa moral.
- Tese central de Moffitt: no sacrifício judaico o animal nunca era morto sobre o altar, e a expiação não ocorre no abate mas na manipulação ritual do sangue levado à presença de Deus (Levítico 17:11, “a vida da carne está no sangue”), logo o que se oferece é a vida inteira da criatura, não sua morte.
- Aplicando isso a Cristo via Hebreus: Jesus é sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (figura sem genealogia e imortal), e só sua vida ressurreta e imortal o qualifica ao sacerdócio, de modo que a expiação só se efetua quando o Cristo ressurreto e ascendido apresenta ao Pai sua vida perfeita (“Eis-me aqui, e os filhos que Deus me deu”, Hebreus 2 citando Isaías 8).
- Divergência interna fina: Rowlands sustenta que o oferecido é a totalidade da vida terrena fiel de Jesus até e incluindo a morte (não a vida pós-ressurreição); Moffitt esclarece que fala em “vida de ressurreição” para marcar que a ressurreição é a transformação escatológica da humanidade mortal que a torna apta a entrar na presença do Deus santo, sem excluir a encarnação inteira.
- Moffitt estende o argumento para além de Hebreus: 1Coríntios 15:17 (“se Cristo não ressuscitou, ainda estais em vossos pecados”), Romanos 8:34 (Cristo à direita intercedendo), Romanos 10:9-10 (crer que Deus o ressuscitou), 1João 2:1-2 (advogado e propiciação presente), lidos como intercessão sacerdotal contínua e presente, não como cruz “terminada” no passado.
- A implicação pastoral: como o sacrifício levítico reparava contínuamente a relação de aliança, a intercessão presente de Cristo mantém um meio permanente de perdão quando o crente peca (confissão, retorno, parábola do filho pródigo), contra a leitura de que “tudo já foi resolvido na cruz e o pecado atual não importa”.
- Pontos de tensão deixados em aberto: divergem sobre Hebreus 6 e a perda de salvação (Rowlands lê como hipotético dado o “de uma vez por todas”; Moffitt leva o aviso a sério mas o relativiza por Romanos 8 e 1João); e Rowlands toca temas controversos ao fim (a crucificação como violência sexualizada segundo David Tombs, o corpo ferido do Cristo ressurreto), anunciando seu livro “The Cross Is Not Enough”.