William Lane Craig comenta clipe a clipe o diálogo entre o astrofísico Paul Davies e a filósofa Emily Qureshi-Hurst no canal de Justin Brierley, argumentando que ambos tateiam em torno de teleologia, propósito e "aboutness" cósmicos sem o passo que falta (o "X" de Davies), e que só o teísmo clássico fornece esse passo. Sua tese é que direcionalidade pode emergir de processos naturais, mas propósito e intencionalidade exigem uma mente, e que o multiverso não escapa nem do começo temporal nem da autorrefutação.
talvez
porque o material teológico próprio é fino (Craig repete posições já conhecidas do kalam, do ajuste fino e dos cérebros de Boltzmann em formato de reação a clipes), mas os pontos sobre intencionalidade e propósito objetivo e a distinção entre muitos mundos e multiverso servem de nota avulsa para o interesse do Bruno em filosofia da religião.
O que foi dito
- Kevin Harris abre lembrando que Craig cita Davies há décadas (o livro técnico “The Physics of Time Asymmetry”, assinado P. C. W. Davies, ajudou Craig no argumento cosmológico kalam, e depois veio “God and the New Physics”) e pergunta se Craig foi duro demais ao dizer a Qureshi-Hurst que ela estava confusa sobre relatividade; Craig admite que poderia ter preparado melhor o terreno, mas não retira o conteúdo.
- No primeiro clipe, Qureshi-Hurst sustenta que propósito é centrado no agente e que, sem um doador de propósito, o universo não tem propósito objetivo, embora ela reconheça propósito construído em humanos, animais e eventuais alienígenas conscientes; Davies contrapõe que o propósito poderia ser emergente ou intrínseco ao sistema.
- Craig concorda com ela contra Davies: da evolução emerge no máximo direcionalidade (biólogos notam aumento de diversidade e complexidade sem chamar isso de meta), pois teleologia é propriedade intencional de um agente; mas ele também descarta o propósito subjetivo dela como ilusório, já que dois sujeitos podem atribuir propósitos contrários e o universo permanece sem propósito.
- Diante da fala de Davies de que a inteligibilidade matemática do universo é espantosa e de Qureshi-Hurst citando a “eficácia irracional da matemática”, Craig separa dois argumentos teístas que se encaixam: o de Eugene Wigner sobre a aplicabilidade da matemática ao mundo físico e o da capacidade extravagante da mente humana, evoluída para sobreviver, compreender teoria quântica de campos.
- Davies recusa a palavra “propósito” por ser culturalmente carregada e prefere dizer que o universo “é sobre alguma coisa”; Craig responde que “aboutness” é intencionalidade, que nenhum objeto físico (cadeira, mesa) possui, e que um fim para o qual o universo tende só vira meta se houver uma mente cósmica que a preestabeleça.
- Sobre o “universo participativo” de John Wheeler, com retrocausalidade e superposição de histórias alternativas colapsadas pela observação presente, Craig chama a hipótese de bizarra e inafirmável por circularidade viciosa: o universo teria de existir antes de si mesmo para trazer o próprio passado ao ser.
- Craig ataca o multiverso em três frentes: a teoria inflacionária não randomiza constantes e quantidades sem casamento com teoria das cordas (hoje desfavorecida), o teorema de Borde-Guth-Vilenkin impede um passado eterno e exige uma origem finita, e a existência de observadores anômalos (cérebros de Boltzmann, de Ludwig Boltzmann) torna a hipótese literalmente autorrefutante, já que jamais saberíamos se somos observadores comuns; ele nota que Davies mesmo diz “dois vivas para o multiverso” e o critica pelo problema das metaleis e da torre de tartarugas, citando o modelo de Andrei Linde.
- Davies propõe um “fantasma no design”, adaptando o “fantasma na máquina” de Gilbert Ryle, alegando que aparelhos experimentais são projetados por seres conscientes e que isso desaparece na interpretação de muitos mundos; Craig diz não entender a inferência e suspeita que Davies confunde a interpretação de muitos mundos da física quântica com a hipótese do multiverso.
- Contra a acusação de antropocentrismo feita por Qureshi-Hurst, Craig invoca Mark Steiner e “The Applicability of Mathematics as a Philosophical Problem” para dizer que o universo é antropocêntrico no sentido de permitir descoberta matemática de novos fenômenos, problema que nenhum dos dois interlocutores enfrentou.
- No fecho, Qureshi-Hurst adota naturalismo com multiverso eterno como fato bruto e diz que o problema do mal, não a cosmologia, é o que a manteria fora do teísmo; Craig responde defendendo os argumentos teístas e jogando o ônus da prova no ateu quanto à incompatibilidade entre mal e Deus, e observa que Davies, que em “God and the New Physics” defendera um Deus naturalista imanente às leis, procura um X futuro (talvez achado por IA) quando o teísmo clássico já explica origem, ajuste fino, eficácia da matemática, valores morais objetivos e sentido, sendo o ser necessário compatível com o Deus da Bíblia (“Eu sou o que sou”, Êxodo 3:14).