Entrevista de pouco mais de uma hora em que o apologista francês Matthieu Lavagna percorre com William Lane Craig o conjunto da obra dele, kalam, ajuste fino, argumento moral, ressurreição, problema do mal e Adão histórico, com Lavagna pressionando em pontos técnicos a partir da literatura recente e de posições católicas.
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é um mapa compacto e atualizado de todo o programa de Craig com as referências bibliográficas na mão (Pruss, Koons, Loke, Baggett, Pitre), e dois pontos tocam diretamente interesses do Bruno: a teodiceia do equilíbrio ótimo, que pressupõe conhecimento divino de contrafatuais de liberdade e portanto conversa com o molinismo do TCC, e a estratégia de datar Adão em 750 mil anos para harmonizar com a genética de populações.
O que foi dito
- Craig resume o kalam em três passos (o que começa a existir tem causa, o universo começou a existir, logo tem causa) e diz que a análise conceitual do que seria essa causa recupera um criador pessoal sem começo, incausado, imutável, atemporal, não espacial, imaterial e enormemente poderoso.
- Sobre as objeções aos dois argumentos filosóficos da segunda premissa, afirma que a réplica mais séria é simplesmente aceitar as absurdidades do infinito atual (o hotel de Hilbert), de modo que a estratégia apologética é elevar o preço do ceticismo o quanto se puder; e responde à objeção do futuro infinito apelando à teoria dinâmica do tempo: o passado infinito seria atualmente infinito, o futuro é apenas potencialmente infinito, sempre finito e sempre crescente.
- Reconhece que o segundo argumento, a impossibilidade de formar um infinito atual por adição sucessiva, pressupõe o devir temporal e dificilmente sobrevive na teoria B do tempo, mas saúda a tentativa de Andrew Loke, de Singapura, de defender o kalam mesmo numa teoria atemporal, sem se convencer dela.
- Discute com entusiasmo o apoio de Robert Koons e Alexander Pruss: diz que o argumento do capítulo 1 de Infinity, Causation and Paradox (regresso causal infinito redutível a causação circular, o caso da galinha e do ovo) é o argumento de Tomás contra o regresso infinito, com o avanço de Pruss ao estendê-lo a séries temporalmente ordenadas, e que o forte do livro são os paradoxos probabilísticos, em que Pruss é inigualável.
- Os dois exploram a ironia de tomistas defenderem o kalam: Craig lembra que na Suma contra os gentios Tomás admite argumentos prováveis para o começo do universo mas exige demonstração com certeza absoluta, padrão que hoje ninguém sustenta; Lavagna replica que para um católico o Vaticano I, na constituição Dei Filius, dogmatiza que a razão sozinha alcança a existência de Deus com certeza.
- Lavagna apresenta sua própria objeção a Tomás, de inconsistência (negar o infinito atual e admitir a possibilidade de passado infinito, quando bastaria Deus criar um átomo por dia desde a eternidade para gerar um infinito atual), e Craig concorda, lembrando que Tomás mesmo dá a ilustração do ferreiro que trabalha desde a eternidade e quebra martelos, cujo número descartado hoje seria atualmente infinito.
- Na parte científica, Craig recapitula o modelo padrão com começo absoluto há cerca de 13,8 bilhões de anos, cita o teorema de Borde-Guth-Vilenkin como um dos teoremas de singularidade mais recentes e o argumento termodinâmico com a hipótese do passado; responde à ressalva de Alan Guth dizendo que certeza é irrelevante em ciência e revelando correspondência privada de Guth, compartilhada por Daniel Came (Liverpool), em que o modelo de inversão da flecha do tempo que Guth invoca implica, na verdade, dois universos distintos com um ponto de começo comum.
- No ajuste fino, insiste que fine-tuning não significa projetado, sob pena de circularidade, e descarta acaso e necessidade física antes de chegar ao design; contra o multiverso usa a objeção dos cérebros de Boltzmann, segundo a qual num multiverso aleatório seríamos mais provavelmente observadores anômalos flutuando do vácuo com percepções ilusórias, e ninguém são acredita ser um cérebro de Boltzmann.
- Anuncia livro novo com o eticista David Baggett sobre o argumento moral, que considera o mais persuasivo para a maioria das pessoas, embora o kalam seja o seu favorito, e cita Michael Ruse (agnóstico) dizendo que quem afirma ser moralmente aceitável estuprar crianças erra tanto quanto quem diz que 2+2=5; concorda com Lavagna que na academia a disputa é com a premissa um (Erik Wielenberg e o platonismo moral) e no público leigo com a premissa dois, e observa que estudantes são mais relativistas que professores, sendo os filósofos os menos relativistas de todos.
- Na ressurreição, remete ao trabalho feito em Munique sob Wolfhart Pannenberg e divide o caso em estabelecer os fatos (túmulo vazio descoberto por seguidoras, aparições a indivíduos e a grupos em circunstâncias variadas, origem súbita e sincera da fé dos discípulos contra toda predisposição) e depois escolher a melhor explicação pelos critérios usuais dos historiadores; sustenta que os três fatos são aceitos pela ampla maioria dos críticos do Novo Testamento, inclusive liberais, agnósticos e judeus.
- Quando Lavagna pede a melhor alternativa cética, Craig constrói uma hipótese composta (um necromante desconhecido em Jerusalém roubando o corpo para usar suas partes, mais visões de luto nos discípulos) e a refuta por falhar na simplicidade, por não haver evidência de necromancia na Judeia do primeiro século (os papiros mágicos são do século III e vêm do Egito) e porque nada na literatura psicológica sobre visões de luto se compara a aparições múltiplas, a grupos, em circunstâncias diversas e inclusive a incrédulos e inimigos.
- Respondendo à disputa entre minimalismo e maximalismo, Craig diz que trata longamente a fisicalidade das aparições nos Evangelhos, aparição por aparição, mas nega que o caso dependa disso, porque o argumento contra aparições visionárias se sustenta de modo independente; e emenda que o trilema de Lewis (mentiroso, lunático ou Senhor) omite um quarto L, legend, razão pela qual o apologista contemporâneo precisa defender a historicidade das autodeclarações radicais de Jesus, com Lavagna indicando o trabalho de Brant Pitre a partir só dos sinóticos (Marcos 2 e o julgamento diante de Caifás em Marcos 14, cena em que, observa Craig, os três títulos se encontram).
- No problema do mal, distingue a versão intelectual da emocional e diz que a maioria das pessoas tem a segunda; sustenta que o ônus do ateu é intransponível, porque teria de mostrar impossível ou altamente improvável que Deus tenha razões moralmente suficientes; rejeita a teodiceia dos anjos caídos como fantasiosa (anjos empurrando placas tectônicas) e lembra que Plantinga a ofereceu como defesa, não como teodiceia; e expõe a própria teodiceia, o equilíbrio ótimo entre salvos e perdidos, segundo a qual Deus ordena providencialmente o mundo para maximizar os que livremente o aceitam, de modo que um mundo saturado de mal natural e moral pode ser exatamente o que produz esse ótimo.
- Fecha com Adão e Eva, corrigindo a premissa de Lavagna: a biologia contemporânea é monogenista (a espécie surgiu uma única vez), o que ela nega é a descendência de um casal fundador, porque postula uma população reprodutiva que nunca desceu a duas pessoas; Craig diz que em In Quest of the Historical Adam conclui que o crente está comprometido com um casal original, mas não com datação recente, e que situá-lo a cerca de 750 mil anos atrás remove o conflito com a genética de populações e a paleoantropologia; sobre os filhos de Caim, Abel e Sete, prefere o casamento entre membros da própria família a qualquer hipótese de cruzamento com primatas não humanos, que seria bestialidade, acrescentando que à época não se tratava de incesto.
- O conselho final é prático e revela o propósito do vídeo: Craig recomenda os recursos traduzidos do site Reasonable Faith, inclusive em francês, mas insiste que cristãos franceses dominem o inglês, porque o acervo em inglês excede em muito o disponível nas línguas europeias; Lavagna observa que a França tem poucos filósofos analíticos.