a tese
No programa "Ask NT Wright Anything", Tom Wright e Mike Bird sustentam que tanto a natureza humana quanto o Sermão do Monte devem ser lidos pela categoria de vocação e reino de Deus, não pela grade legalista "bom versus mau" nem pelo medo pós-reforma de qualquer mandamento.
aprofundar
sim
Vale ao Bruno pela teologia bíblica de Wright sobre reino, vocação e a crítica direta ao esquema lei/graça pós-reforma, com material exegético em Mateus 5, Gênesis 1, Romanos e o discípulo amado em João; o formato é conversa acessível, mas os movimentos interpretativos são densos e discutíveis, bom para diálogo crítico.
O que foi dito
- Sobre a depravação total, Wright a considera realista (“olho no espelho toda manhã”), mas a redefine: não é que o humano seja tão mau quanto poderia, e sim que há falha em todas as dimensões da pessoa; é doutrina “otimista”, porque abre uma história de boas novas em vez de encolher os ombros.
- Responde à pergunta de Zach recusando o binário “bons que às vezes falham” ou “maus capazes de bem”: em Gênesis 1 o humano recebe a vocação de refletir o amor e a glória de Deus no mundo, e a questão é se vive ou não essa vocação, não onde cai numa escala moral.
- Com Ireneu, insiste que a imagem de Deus não é removida pelo pecado nesta vida; até um compositor sem fé produz beleza, e pessoas imperfeitas fazem o bem “apesar de si mesmas”, contra a leitura agostiniana das virtudes pagãs como “vícios esplêndidos”.
- Critica a ansiedade protestante (Lutero, Calvino, Zwínglio, socinianos) sobre “capacidades inatas não caídas”; prefere dizer que em cada geração Deus se faz presente convocando ao serviço, e a maioria recusa, mas isso é vocação, não ranking moralista.
- Sobre o discípulo amado no Quarto Evangelho, ambos dispensam teorias de arrogância ou humildade e a hipótese Lázaro; Wright, seguindo Richard Bauckham, inclina-se a um discípulo muito jovem (talvez adolescente), e Bird, com Bauckham e Hengel, a um João judeu ligado ao círculo do sumo sacerdote (cena do pátio no julgamento), citando ainda a tese de George van Kooten de que seria um escriba de Jerusalém.
- Wright adverte que na história antiga a escassez de dados gera muitas hipóteses possíveis, mas não prováveis, e o decisivo é o fim do evangelho: o testemunho ocular cuja verdade João 21 avaliza.
- Sobre o Sermão do Monte, rejeita a leitura de que Jesus prega a lei apenas para nos esmagar e nos jogar na justiça imputada; chama isso de “neurose pós-paulina”, o tique teológico que se assusta com qualquer mandamento e com a ideia de agradar a Deus.
- Lê as Bem-aventuranças não como padrão moral a ser atingido para merecer favor, e sim como descrição de como o reino acontece quando Deus assume o controle: não com tropas e tanques, mas com os mansos, os que choram e os pacificadores construindo hospitais, escolas e justiça; “entrar no reino dos céus” é participar dessa obra na terra, não ganhar bilhete para o céu depois da morte.