No podcast "Ask N. T. Wright Anything", N. T. Wright e Mike Bird respondem perguntas de ouvintes e sustentam que 2 Pedro 3 e Apocalipse 21 não ensinam a destruição do mundo e recriação a partir do nada, mas continuidade dentro da descontinuidade: Deus purifica pelo fogo o que há de corruptível na criação para revelar o mundo verdadeiro, não o incinera para substituí-lo.
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Casa direto com o interesse do Bruno em escatologia e crítica textual; a discussão da variante em 2 Pedro 3.10 e a leitura da nova criação como continuidade rendem material exegético, e o argumento anti-gap-theory e a eclesiologia servem de contraponto ao debate católico-protestante do acervo.
O que foi dito
- Wright abre contando que luta para terminar um livrinho sobre nacionalismo cristão que se revelou mais difícil que o esperado; Mike Bird anuncia o próprio livro “Imperium”, sobre o Império Romano e a igreja no século III.
- Primeira pergunta (Matthew, do Texas): um católico que quer deixar Roma por legalismo, infalibilidade papal e dogmas marianos e pergunta a qual das três correntes anglicanas dos EUA aderir (Episcopal, ACNA, continuing) ou se pode ser “genericamente anglicano”.
- Wright responde que igreja é como família (não se escolhe), lamenta o individualismo consumista do “smorgasbord” de opções eclesiais e o church hopping (que julga tão ruim quanto os dogmas romanos), e recomenda escolher pelo critério do bem espiritual da família e dos filhos, não pela igreja ideal; reconhece que muitos teólogos católicos creem em cada cláusula do Credo, e localiza o problema de Roma em acrescentar dogmas ao núcleo credal.
- Mike Bird acrescenta que não se deve tratar igreja como escolha de consumidor (pasta de dente) e que a pergunta não é só qual igreja é boa para você, mas onde você será bom para ela.
- Segunda pergunta (Mark, de Sydney): a “gap theory”, que põe milhões de anos entre Gênesis 1.1 e 1.2 para acomodar a queda de Satanás, dinossauros e a idade da Terra.
- Wright rejeita a teoria como resposta desnecessária a uma pergunta ilegítima: a exigência de seis dias de 24h é dogma do protestantismo americano moderno (marcado pelo julgamento Scopes, cerca de 100 anos atrás), estranho ao resto da cristandade; lembra que conservadores como Warfield, de Princeton, aceitaram o processo longo dizendo “foi assim que Deus fez”.
- Wright lê Gênesis 1 como grande quadro/tableau (evita a palavra “poesia”) sobre Deus fazer a criação como templo (cita John Walton) e sobre humanos feitos à imagem de Deus como reis e sacerdotes, não como cronologia; recomenda leitura ampla, inclusive Agostinho e a judia Amy-Jill Levine, contra o hábito de só ler autores “seguros e conservadores”.
- Bloco principal (Moray, do Reino Unido, e Ben, de Washington): 2 Pedro 3.10-13 e Apocalipse 21 não indicam recriação com destruição do mundo atual em vez de renovação?
- Wright alerta contra ler os primeiros cristãos como estoicos (a ideia estoica de o mundo arder e renascer como fênix não é cristã) e ancora sua resposta em “The Resurrection of the Son of God” (pp. 462ss) e “Surprised by Hope”; a ressurreição de Jesus é o único exemplo já dado de nova criação, corpo físico incorruptível de onde foram removidos morte e sofrimento.
- Nota textual (G1): a tradução “será queimada” depende de uma palavra grega minoritária; os melhores manuscritos trazem heurethēsetai (“será descoberta/encontrada”, o texto de NA) em vez de katakaēsetai (“será queimada”), e o aparato Nestle-Aland lista meia dúzia de variantes nesse ponto, um dos mais controversos do NT. (Atenção: a legenda grafou “hureseti/kataketi”, corrigido pelo sentido.)
- Bird concorda que 2 Pedro não bebe fundo do estoicismo, mas pode dialogar com sua linguagem; o juízo pela Terra é revelação e refinamento (a Terra “posta a nu” para o juízo), e o texto fecha com a linguagem de Isaías 66 sobre novos céus e nova terra onde habita a justiça, continuidade dentro da descontinuidade, não uma “criação 2.0 ex nihilo”.