a tese
Em palestra e conversa em Wycliffe Hall (Oxford) sobre seu novo livro "God's Homecoming", N. T. Wright sustenta que o ponto do cristianismo não é a alma ir para o céu, mas Deus vir habitar a terra; a esperança bíblica é a nova criação e a ressurreição, e a leitura "escapista" é uma platonização tardia do evangelho.
aprofundar
sim
é Wright em alto nível sintetizando escatologia inaugurada, teologia do templo e crítica ao platonismo, com farta matéria exegética e polêmica (nacionalismo cristão, ceia, estado intermediário) afinada ao interesse do Bruno; rende uma análise avulsa.
O que foi dito
- Abre com a frase de efeito do livro: a maioria crê que o cristianismo é “ir para o céu quando morrer”, e “estão todos errados”; o ponto é que o céu venha à terra, como Jesus ensinou a orar.
- Conta que sempre o incomodou que 2/3 da Bíblia (o Antigo Testamento, sobre terra, família, lei) parecesse abandonado por um evangelho de fuga para o céu, e que a oitava bem-aventurança (“os mansos herdarão a terra”) não cabia nessa moldura.
- Reúne três fios do Antigo Testamento: o Reino de Deus como Deus reinando na terra; o tema do templo (Gênesis 1 como templo cósmico, o humano como imagem no cruzamento entre céu e terra, sacerdócio real; o tabernáculo de Êxodo 40 e o templo de Salomão como maquete da nova criação); e as promessas de a terra ser cheia da glória do Senhor.
- Identifica duas histórias de Deus no Antigo Testamento: Deus prometendo transformar toda a criação e Deus prometendo voltar em pessoa (a glória que partiu no exílio, Ezequiel; o retorno em Isaías 40 e 52, Malaquias 3), e afirma que a cristologia do Novo Testamento nasce daí, não do século IV.
- Lê João 1.14 (“o Verbo se fez carne e tabernaculou entre nós”) como linguagem de templo, e Pentecostes (Atos 2, a casa cheia) como o enchimento do novo templo, a Igreja, antecipação de Deus saturar toda a criação pelo Espírito.
- Mapeia cinco diferenças do Novo em relação ao Antigo (juízo sobre o templo, sábado, inclusão dos gentios, fim das leis alimentares, reino pacífico), nenhuma delas sendo troca do terreno pelo celestial.
- Atribui a distorção à leitura platônica (Orígenes alegorizando o Antigo Testamento como Plutarco fez com Homero; o sumo bem como a alma retornar ao céu), agravada pela retirada rabínica do tema do reino após 70 e 135 d.C.
- Reinterpreta os textos-prova: “hoje estarás comigo no paraíso” (estado intermediário, não destino final), “cidadãos do céu” de Filipenses 3 (colônia que traz a civilização do céu à terra, não bilhete de volta), e psyché/nephesh como pessoa inteira, não alma platônica imortal.
- Rejeita o nacionalismo cristão e a leitura de “meu reino não é deste mundo” (ek tou kosmou: não vem deste mundo, mas é para este mundo), critica hinos que ensinam fuga escapista (“Amazing Grace”, “Away in a Manger”) e lê Apocalipse 21 como a nova Jerusalém descendo, a habitação de Deus com os humanos.
- Nas perguntas, articula justificação e boas obras (Efésios 2.8-10, poiema, obra de arte de Deus) sem legalismo, defende leitura trinitária de Gênesis 1 e aponta Romanos 8, os Salmos e os discursos de despedida de João como recurso pastoral diante do sofrimento.