a tese
Luiz Sayão sustenta que a marca de Caim, em Gênesis 4, é sinal de proteção e de graça divina, não de maldição, e que a leitura racista que a identificou com o escurecimento da pele não tem nenhuma base no texto.
aprofundar
não
A exegese está correta e a desmontagem da leitura racista é útil como referência, mas o conteúdo é de divulgação e não acrescenta nada que o Bruno já não resolva lendo o texto hebraico e um comentário de Gênesis.
O que foi dito
- Abre com uma esquete em que ele mesmo encena Caim a caminho da terra de Node, exibindo “marcas” na cabeça que nada têm a ver com o texto bíblico, para introduzir a confusão popular sobre a passagem.
- Lê Gênesis 4.10-16 na íntegra e situa a narrativa na sequência de deterioração das relações humanas que Gênesis descreve: o Éden, Caim e Abel, o dilúvio e a Torre de Babel, com dimensões psicológica, social e ecológica, e nota o agravamento de Adão, que culpa a mulher, para Caim, que mata o irmão.
- Apresenta a leitura rabínica antiga, especialmente a de Rashi, segundo a qual o ot (traduzido por σημεῖον na Septuaginta) veio do próprio Deus e consistiria em letras do nome sagrado (vav, yod, yod), cuja soma numérica dá 26, o mesmo valor do Tetragrama, de modo que a marca de Deus estaria sobre Caim.
- Registra que outros intérpretes variaram bastante, incluindo a sugestão extravagante de um chifre que o faria parecer besta selvagem, e insiste que nada disso está no texto.
- Ataca a interpretação surgida há dois ou três séculos de que a marca seria o escurecimento da pele, adotada por grupos protestantes do sul dos Estados Unidos no contexto da escravidão e afirmada diretamente por Brigham Young, entre os mórmons.
- Mostra que essa leitura é incoerente até nos próprios termos: pela narrativa bíblica, a civilização de Caim desapareceu no dilúvio, de modo que ninguém hoje poderia portar tal marca.
- Destaca que a palavra maldição não aparece na passagem e que o texto repete quatro vezes a fórmula vayomer Adonai el Qayin, “disse o Senhor a Caim”, sinal de que Deus é quem vai atrás do assassino.
- Conclui que o sinal é marca de proteção ligada ao hesed divino, uma graça que muitos imaginam só existir no Novo Testamento e que atravessa toda a Bíblia até Cristo, e que pessoas com olhar enviesado preferem ler maldição onde o texto oferece misericórdia.