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BENITES PALPITANDO SOBRE DUNS SCOT

a tese

Matheus Fugita e o convidado católico Carlos reagem à aula "Como Duns Scotus salvou a filosofia", de Mateus Benites, e sustentam que a tese do vídeo (a ontologia escotista teria aberto as portas do nominalismo, do empirismo e do ateísmo moderno) se apoia em erros básicos sobre univocidade do ente, distinção formal, haecceidade e voluntarismo. A conclusão dos dois é a inversa: Scotus é o conservador do paradigma agostiniano-franciscano e Tomás de Aquino é o revolucionário da guinada aristotélica do século XIII.

aprofundar

talvez

porque as correções de Carlos sobre univocidade, distinção formal, haecceidade e voluntarismo são tecnicamente sólidas e raras em português, mas vêm diluídas em quase cinco horas de deboche, leitura de chat e pedido de doação, então compensa só se você pular direto para os trechos do react e para o bloco final sobre molinismo.

O que foi dito

  • Benites abre a aula afirmando que a origem do empirismo não está em Bacon, Locke ou Hume, mas em Duns Scotus, e Carlos responde que o adágio “nada há no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos” é aristotélico (De anima) e que Scotus era peripatético e comentador de Aristóteles.
  • Benites ancora a exposição no compêndio de Cambridge sobre Duns Scotus (organizado por Thomas Williams, edição brasileira da Ideias e Letras) e na História da Filosofia de Giovanni Reale, e os dois anfitriões apontam erros conhecidos de Reale e derrubam o contraste “Scotus é mais sistemático e difícil que Tomás”, lembrando que a Suma Teológica era obra didática de introdução, enquanto as Questões disputadas sobre a potência de Deus e opúsculos como o De ente et essentia são tão duros quanto a Ordinatio.
  • Sobre a divisão das ciências, Benites diz que para Scotus a teologia não é ciência e opera por persuasão e retórica, ao passo que a metafísica opera por demonstração, e Carlos objeta que as ciências teoréticas elencadas são as mesmas de Tomás, que negar estatuto científico à teologia era posição comum inclusive entre alunos de Tomás, e que Scotus argumenta racionalmente em toda parte.
  • Na univocidade do ente, Carlos corrige a ideia de que Scotus apenas rejeita a analogia: a univocidade se opõe à analogia de Henrique de Gante sem excluir graus de analogia internos, e Benites confunde a disputa sobre o primo cognitum (Caetano contra o escotista Antônio Trombeta) com a questão do objeto adequado do intelecto.
  • Quanto à prova da existência de Deus, Benites classifica o argumento do Tratado sobre o Primeiro Princípio como a priori à maneira de Anselmo, antecipando a semântica de mundos possíveis de Kripke e Plantinga, e objeta que quarks ou um campo quântico poderiam ser o ente necessário, ao que Carlos responde que Scotus parte do factível e da possibilidade de uma causa eficiente até chegar ao necessário, num tipo de demonstração que não é a priori nem a posteriori (paralelo com a demonstração por equiparação de Raimundo Lúlio), e Fugita lembra que a terceira via de Tomás já é modal.
  • O erro mais celebrado da noite é Benites explicar a distinção modal (a luminosidade e seus graus) como contingência e possibilidade, equivocando o sentido de “modo”, e classificar a distinção formal como não real sem jamais explicar o que é uma formalidade, sendo que Tomás também sustenta que os nomes divinos não são sinônimos, o que já esvazia a objeção.
  • Na questão dos universais, Carlos ataca a tabela que põe Platão e Anselmo como realistas exagerados e Tomás junto de Scotus no realismo moderado, lembrando que o realismo escotista é mais forte que o tomista (tomistas do século XIX o chamavam de realismo exagerado), que o universal se abstrai das espécies sensíveis e não da coisa individual, e que a haecceitas é a última contração da natureza comum, não uma formalidade, além de negar que Scotus rompa com a participação, já que ele lê o Liber de causis, o Pseudo-Dionísio e Agostinho.
  • No voluntarismo, Benites sustenta que para Scotus Deus poderia criar um triângulo quadrado e que a moral se reduz à vontade divina, ligando isso à teoria do comando divino de William Lane Craig e à simpatia protestante, e Carlos replica que “Deus não deve nada à criatura” é adágio comum a Agostinho e Tomás, que a onipotência capaz de contradições é tese cartesiana (Ockham a nega expressamente) e que Scotus identifica Deus com a bondade sem fazer a justiça depender de um ato de vontade, enquanto o contraste entre ética das virtudes em Tomás e “protodeontologia quase kantiana” em Scotus ignora que Gilson classificava Scotus como essencialista e Tomás como existencialista.
  • No fecho da aula Benites emenda, sem nexo com o slide, um ataque a tomistas que ignorariam crítica textual (Bart Ehrman, autoria das cartas paulinas) e a Carlos Nougué, Marcelo de Andrade e Guilherme Freire, que não teriam lido Graham Oppy e William Rowe, ao que Fugita rebate com 1Coríntios e 2Pedro (Paulo reivindica mandamento do Senhor, Pedro trata as cartas de Paulo como escrituras) e observa que o próprio Benites leu Oppy como se mundos possíveis fossem um multiverso com retrocausalidade, enquanto Carlos cobra que quem quer refutar Scotus leia os grandes comentadores escotistas, como Mastri e Poncio (grafia incerta), e não só a literatura contemporânea.
  • Nas duas horas finais, já fora do react, Carlos responde perguntas pagas sobre a arte de Raimundo Lúlio (função da figura mestra, geometria sensível, natural e intelectual, e por que o valor de capacidade do círculo e do quadrado não colide com a impossibilidade algébrica da quadratura) e resume a diferença entre molinismo e tomismo bañeziano, decretos predeterminantes com premoção física de um lado, decretos condicionais com ciência média e concurso simultâneo do outro, com graça extrinsecamente eficaz dependente da cooperação livre, recomendando Royo Marín e advertindo que iniciante na fé não deveria entrar na controvérsia da predestinação.

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