a tese
Luiz Sayão, coordenador geral da tradução da NVI em português, denuncia em live que a detentora dos direitos nos Estados Unidos passou a exigir que as editoras brasileiras abandonem a NVI original em favor da NVI 2023 quando o estoque acabar, e defende que os dois textos convivam e que o leitor escolha.
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Interessa duplamente: é notícia prática sobre a versão que sustenta uma pilha de material publicado no Brasil, com a fonte documental indicada (a reportagem da Comunhão com Lourenço Rega), e traz de graça a posição de um tradutor experiente sobre texto crítico, Septuaginta e limites da literalidade.
O que foi dito
- Reconstrói a origem do projeto: no início dos anos 1990 a International Bible Society procurou Russell Shedd, que o indicou como secretário executivo da comissão, com a orientação de montar um grupo diverso em especialização, teologia, denominação e região.
- Descreve a comissão de 19 estudiosos, com batistas, presbiterianos, luteranos, menonitas e carismáticos, brasileiros, europeus e americanos, incluindo Carlos Osvaldo Pinto, Martin Weingaertner, Betty Bacon e Randall Cook, oito anos de trabalho a partir dos originais, consulta simultânea a dez ou doze línguas e fechamento técnico junto ao Summer Institute of Linguistics no Texas, até o lançamento em 2000.
- Situa a NVI como proposta intermediária entre a equivalência dinâmica da linguagem de hoje e a equivalência formal das Almeidas, feita para quem tem oito anos de escolaridade, e cita os outros projetos em que trabalhou (Almeida 21, Bíblia de Estudo Esperança, A Mensagem, Rota 66) e as versões que recomenda hoje: NVI, NVT, Nova Almeida Atualizada e Almeida 21.
- Explica sua divergência com a NVI 2023: não participou, não foi avisado e passou a ser cobrado por leitores; discorda de duas escolhas, a de remeter ao rodapé as passagens que o texto crítico considera secundárias (com versículos que somem do corpo, como em Mateus 17) e a volta às medidas antigas, contra a decisão da comissão original de avaliação eclética dos manuscritos e de uso de equivalentes contemporâneos.
- Argumenta que o critério do texto crítico levado a sério geraria dificuldade ainda maior para o leitor comum, citando João 7.53 a 8.11 e Marcos 16.9-20, e lembra que o Nestle-Aland não é consenso acadêmico fechado.
- Traz a denúncia pública: reportagem da revista Comunhão com Lourenço Stelio Rega, ex-diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo e sem nenhum vínculo com a NVI, relatando a exigência e alertando para o prejuízo de retrabalhar dezenas de bíblias de estudo, comentários e livros baseados na NVI original, com a frase de que a Bíblia não é mercadoria.
- Sayão registra que nunca recebeu direitos pelo trabalho e que os tradutores cederam os direitos a quem financiou, reconhece a legitimidade jurídica da decisão e a rejeita no mérito, observando que nunca houve na história das versões de Almeida um movimento para suprimir uma edição anterior, e recusa a palavra censura preferindo falar em falta de bom senso.
- Na parte prática, indica que a editora Geográfica ainda publica a NVI de 2011 e que o Bible Gateway mantém o texto original com as notas, enquanto sites como o Bíblia Online já migraram, e dá como teste rápido Gênesis 4.1, onde a NVI original traz “teve relações com Eva” e a nova traz “relações sexuais”, escolha que ele considera desnecessária diante de um verbo hebraico que suaviza (conhecer na intimidade).
- Nas perguntas, aceita a correção de um espectador sobre a frase faltante em Daniel 7.24 e a atribui a erro de diagramação, defende datação alta do Novo Testamento (inscrição de Gálio em Delfos fixando o encontro com Paulo em Corinto entre 50 e 51, Atos até o ano 60 e evangelhos antes disso, com menção ao fragmento 7Q5) e critica a herança da escola de Tübingen de Ferdinand Christian Baur.
- Trata ainda de questões técnicas: a Septuaginta não é texto-base de nenhuma versão, mas foi usada em casos como Gênesis 4.8, onde “vamos para o campo” falta no massorético e aparece no Pentateuco samaritano, na Septuaginta, na versão síria e na Vulgata; faz de cabeça a análise de Jonas 1.1-2, tratando לאמר como recitativo e “levanta-te, vai” como hendíade de valor adverbial (“vá depressa”); e lê Êxodo 3.14 como “serei o que determinar ser”, afirmação de incontrolabilidade divina contra a lógica de negociação do mundo pagão.