a tese
No Ask NT Wright Anything, Mike Bird e Tom Wright respondem a três perguntas: o final de Marcos, que Wright julga perdido junto com o começo por deterioração física do rolo, o propósito de Atos, e a violência no Antigo Testamento, sobre a qual ele recusa ter resposta pronta e oferece três balizas.
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O argumento material sobre a perda do começo e do fim de Marcos, com a evidência dos rolos do Mar Morto e a anomalia de Marcos 1.2, é ganho concreto para quem trabalha nos evangelhos, e a resposta sobre a violência no Antigo Testamento é honesta ao admitir que não resolve.
O que foi dito
- Bird expõe o problema textual de Marcos 16: os manuscritos mais antigos e confiáveis terminam em 16.8, com as mulheres fugindo do túmulo sem dizer nada a ninguém, enquanto o final longo do texto majoritário, que entrou na King James, é o menos bem atestado.
- Wright conta que já considerou duas hipóteses (Marcos teria parado onde Pedro parou de pregar, ou o texto traria uma rubrica convidando testemunhas oculares presentes a contar sua história) e que mudou de posição, expondo o argumento no capítulo 14 de A ressurreição do Filho de Deus.
- Sua tese atual nasceu da visita ao Museu de Israel: quase todos os manuscritos do Mar Morto estão truncados no começo, no fim ou nos dois, porque os bastões de madeira em que o rolo era enrolado apodreceram e arrancaram consigo o trecho preso a eles.
- Aplica isso a Marcos nos dois extremos: além do fim perdido, suspeita que o começo também se perdeu, já que “como está escrito em Isaías, o profeta” (1.2) introduz uma citação de Malaquias, o que sugere que um escriba antigo, achando um texto que começava abruptamente, redigiu a abertura “princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”, pois um evangelho pode terminar em reticências, mas dificilmente começaria assim.
- Descarta como fantasia moderna ou pós-moderna a leitura de que Marcos teria parado de propósito em ἐφοβοῦντο γάρ para deixar o mistério aberto, lembrando que “temor e tremor” aparece em outras passagens marcanas, como a mulher que toca em Jesus na multidão, e que, desde o capítulo 8, Jesus prediz repetidamente cruz e ressurreição, além da resposta a Caifás sobre o Filho do Homem à direita do Poder (Daniel 7 e Salmo 110), de modo que a narrativa exige um relato de ressurreição, talvez parecido com o final de Mateus.
- Bird acrescenta que o final longo é secundário mas antigo, atestado no tempo de Justino Mártir (entre 125 e 150), e que seu valor está em incorporar elementos dos quatro evangelhos e de Atos, provando a circulação conjunta desse corpus no segundo quartel do século II; Wright observa que o versículo 9 recomeça a história da ressurreição do zero, e não a continua, e Bird indica o Mark 16 Project, que coleciona manuscritos e anotações marginais de escribas sobre a passagem.
- Sobre Atos, Wright sustenta que os capítulos 1 a 12 resumem a primeira geração em Jerusalém e os capítulos 13 a 28 se concentram em Paulo, mas que o herói não é Paulo e sim o evangelho, a palavra que age, e que a chegada a Roma cumpre “até os confins da terra”; a sequência de julgamentos em que autoridades romanas declaram Paulo inocente (inclusive o escrivão da cidade em Éfeso e o centurião no naufrágio) prepara a defesa diante de César.
- Nega incompatibilidade entre essa apologia e a proclamação de Jesus como κύριος do mundo, apelando a Romanos: a carta abre afirmando o Filho de Deus como senhor do mundo com vocabulário imperial, e em Romanos 13 recusa a revolução violenta, sem abandonar a senhoria de Cristo nos capítulos 1 a 8 e 14 a 15, com linha direta para os apologistas do século II e Policarpo, que pagavam impostos e só recusavam adorar os deuses.
- Na violência do Antigo Testamento, recusa a saída marcionita e dá três balizas: Gênesis 15, em que o adiamento do retorno se explica porque “a iniquidade do amorreu ainda não se completou”, sinal de que Deus espera até que a corrupção de uma sociedade (com sacrifício de crianças) só admita palavra de juízo, com o dilúvio como precedente; as exceções dentro de Josué (Raabe, os gibeonitas) que já quebram a teoria absoluta; e a proibição a Davi de construir o templo por ter sangue nas mãos, sinal de que Deus mesmo põe limite àquilo.
- A terceira baliza é narrativa: Abraão é chamado para resolver o problema da humanidade sendo ele mesmo parte do problema, e Deus trabalha com essa ambiguidade até o quadro se completar na cruz, onde o Criador toma sobre si a violência do mundo, de modo que o leitor não deve esperar da Bíblia um livro de bons exemplos morais; Wright admite que não tem resposta que supere as demais, confessa pensar nos Salmos imprecatórios ao olhar para certos líderes mundiais de hoje, e o tema fica para um episódio extra.