Matheus Fugita e um convidado especialista em escotismo (chamado Carlos no vídeo) reagem ao vídeo "Como Duns Scotus salvou a filosofia", de Matheus Benites, e desmontam ponto a ponto a narrativa católica do "pecado original da filosofia", segundo a qual Scotus teria aberto caminho para Ockham, o nominalismo, a modernidade, o protestantismo e o ateísmo.
talvez
e mais como crítica de fontes do que como tese: a discussão é técnica e bem conduzida contra a narrativa devocional-tomista da decadência, mas o formato de reação minuto a minuto rende pouco por hora; o trecho sobre modalidade (Scotus, terceira via, Leibniz, Kripke, Plantinga) é o que toca de perto os interesses do Bruno.
O que foi dito
- A objeção de abertura: atribuir a Scotus a tese de que o conhecimento vem da experiência ignora Aristóteles, que já sustentava no De Anima que nada está no intelecto sem ter passado pelos sentidos, adágio peripatético corrente muito antes do século XIII.
- Fugita resume a estrutura polêmica do vídeo criticado como genealogia de degeneração (“Scotus gera Lutero, que gera a modernidade, que gera o ateísmo”), e observa a incoerência de chamar Scotus de golpe contra a metafísica clássica quando ele é um dos principais desenvolvedores dela e sua escola dominou boa parte da Idade Média.
- Contestam a comparação de que Scotus seria mais sistemático e difícil que Tomás de Aquino: fora a Suma Teológica, obra deliberadamente didática, Scotus faz o mesmo trabalho (comentários a Aristóteles e às Sentenças de Pedro Lombardo), e textos como as Questões Disputadas sobre a Potência de Deus são tão difíceis quanto ele; a suposta clareza de Tomás é mitologia, evidenciada pelo número de interpretações rivais sobre analogia, ser e essência.
- Corrigem a apresentação da carreira acadêmica medieval: o comentário às Sentenças não era uma tese sobre um ponto escolhido, e sim o comentário obrigatório aos quatro livros, no curso de teologia, não de filosofia.
- Sobre as ciências teoréticas, apontam que as que Scotus lista são as mesmas de Tomás exceto pelo estatuto da teologia, e que negar à teologia o caráter de ciência era posição comum na época, sustentada inclusive por alunos de Tomás, o que esvazia a acusação de que isso abre as portas da modernidade.
- Acusam de confusão a afirmação de que a metafísica operaria por demonstração e a teologia por persuasão retórica: Scotus usa razão sistemática o tempo todo, e a fórmula do vídeo criticado mistura indevidamente voluntarismo, fé e retórica numa “salada”.
- Sobre a univocidade do ente (que a legenda automática grafa “universidade doente”), lembram que a doutrina se opõe à analogia de Henrique de Gante, mas que Scotus também tem uma teoria analógica, com graus de analogia dentro da própria univocidade, e que dizer que para Scotus Deus é o ser enquanto ser não o distingue de Tomás, para quem vale o mesmo, questão que exigiria discutir o constitutivo formal da essência divina.
- Corrigem a tese de que o processo de abstração resultaria da queda: em Scotus o que a queda impõe é a conversio ad phantasmata, a necessidade de o intelecto voltar-se às imagens sensíveis, enquanto a abstração existiria em qualquer estado humano; e diagnosticam que o vídeo confunde a disputa entre tomistas e escotistas sobre o primo cognitum com o objeto adequado do intelecto, citando Caetano e Antônio Trombeta sobre a “espécie especialíssima”.
- Sobre a prova da existência de Deus, negam que o argumento do Tratado do Primeiro Princípio seja simplesmente a priori à maneira de Anselmo: a bibliografia recente vê ali uma via própria, que parte do possível para chegar ao necessário e ainda apela à experiência, e o próprio par a priori/a posteriori é insuficiente (citam a demonstratio per aequiparantiam de Raimundo Lúlio como terceiro caso).
- Negam também que Scotus tenha inventado o pensamento modal: a terceira via de Tomás já parte da contingência e da necessidade em termos modais, e há lógica modal em Aristóteles; concedem apenas que Scotus a desenvolve de modo influente, linha que chega a Leibniz e, na filosofia analítica, a Kripke e Plantinga. O vídeo é a Parte I e termina no meio do material.