a tese
Alex O'Connor conversa com Michael Pollan sobre o livro "A World Appears" e chega à tese central do autor: senciência é uma capacidade básica e amplamente distribuída na vida, inclusive nas plantas, enquanto consciência é apenas um modo entre outros de fazer senciência, o modo que resolve os problemas existenciais da nossa espécie.
aprofundar
talvez
a virada de Damasio e Friston (consciência começando em sentimento, no tronco encefálico, e existindo para a vida social) é material de primeira para pensar antropologia teológica e alma, e o argumento do O'Connor sobre a circularidade da emergência é reutilizável; o resto é história natural interessante.
O que foi dito
- Abre com a pergunta de Nagel aplicada às plantas (“é como alguma coisa ser uma planta?”) e a resposta de Pollan: não sabemos, mas ele prefere falar em senciência, definida como perceber o ambiente, distinguir mudanças boas e más e responder de modo apropriado, algo que já se encontra em bactérias.
- Enumera os dados que o levaram lá: plantas aprendem e lembram, teriam cerca de 20 sentidos contra nossos cinco ou seis, reagem ao som de lagartas mastigando alterando o sabor das folhas, e, o mais sugestivo, respondem aos mesmos anestésicos que nós, o que obriga a perguntar o que exatamente se perde quando cessa a atividade.
- Cita Stefano Mancuso, botânico italiano, para quem as plantas sabem que estão sendo comidas mas não necessariamente se importam, já que ser comida é parte da estratégia reprodutiva de muitas delas, e para quem a dor não seria adaptativa em quem não pode fugir.
- Exemplos discutidos: o feijoeiro que em time-lapse parece procurar o suporte e relaxar ao encontrá-lo, raízes que localizam água dentro de um cano seco por fora, a mimosa que aprende em 30 dias que a queda do vaso é inofensiva, e a trepadeira tropical que imita a forma da folha da planta que coloniza.
- Contra a objeção de que isso é mera reação química (a bicicleta que enferruja na chuva), Pollan responde que a bicicleta não faz nada a respeito, enquanto a planta age; e observa que biólogos abandonaram a linguagem de instinto porque comportamento programado não resolve situações inéditas.
- O trabalho de Michael Levin, em Tufts, sustenta a parte mais forte: células de pele de girino formam novos organismos com divisão de trabalho sem nada nos genes que ensine aquilo, e campos bioelétricos, estudáveis só desde os corantes sensíveis a voltagem dos anos 1980, podem armazenar informação sem neurônios.
- Pollan distingue seu trabalho do misticismo, lembrando que “A Vida Secreta das Plantas”, dos anos 1970, foi desacreditado e atrasou décadas de pesquisa séria sobre comportamento vegetal.
- A conversa vira para a consciência em geral: O’Connor argumenta que toda explicação redutiva se dá dentro da consciência (explicar o cheiro por moléculas é descrever como ele se parece visualmente), e ambos tratam “emergência” como palavra que sempre se explica por outro exemplo de emergência, nunca por um mecanismo.
- Retomam Philip Goff e “Galileo’s Error”: a ciência teve sucesso justamente por excluir a primeira pessoa, deixando o qualitativo para a igreja, e agora volta ao território de onde se excluiu; somam Crick e Christof Koch, que percebeu em poucos anos que achar os correlatos neurais não responderia à pergunta, e o problema difícil de Chalmers.
- Pollan endossa a virada de Damasio em “O Erro de Descartes”: a consciência começaria em sentimentos homeostáticos no tronco encefálico, não no pensamento no neocórtex, o que amplia o círculo dos conscientes a todos os vertebrados e, de quebra, joga contra a consciência de máquina, porque computadores imitam pensamento e não sentimento.
- Cita a explicação evolutiva de Karl Friston para por que somos conscientes: a vida social humana tem variáveis demais para ser automatizada, e a consciência é o espaço onde se consideram contrafactuais e se projeta a mente do outro.
- Fecha o tema das plantas com honestidade: perguntado se elas sentem dor, Pollan diz que um dos cientistas entrevistados acha que sim e dá de ombros, e admite que sua própria inclinação pelo não pode ter motivo interessado, já que quer continuar comendo com a consciência tranquila.