a tese
Numa longa conversa com o filósofo Jan Westerhoff (grafia provável; a legenda escreve "Yanvest"), especialista em Madhyamaka, Alex O'Connor expõe a filosofia budista de Nagarjuna, o "segundo Buda", cuja tese central é que tudo é "vazio", isto é, nada tem natureza intrínseca porque toda coisa depende de outras, sem fundamento último.
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talvez
Filosofia densa e bem conduzida, cara à ontologia da dependência e ao argumento da causação que o Bruno já discute em filosofia da religião; rende análise avulsa se ele quiser confrontar o vazio budista com o fundacionalismo teísta, mas é budismo, não o núcleo de interesse dele.
O que foi dito
- Nagarjuna (séculos I-II d.C., sul da Índia) escreveu os Versos Fundamentais do Caminho do Meio e fundou o Madhyamaka, que se entende não como inovação mas como explicitação dos sutras da Perfeição da Sabedoria (o Sutra do Coração), dando centralidade ao conceito de vazio, shunyata.
- O “caminho do meio” fica entre dois extremos: o fundacionalismo (há entidades últimas onde a análise para) e o niilismo ontológico (nada existe); Madhyamaka aceita que a dependência desce infinitamente sem chegar a nada, e por isso é acusado de niilismo pelos rivais budistas e não budistas.
- Westerhoff monta a “estrada para o niilismo” com dois princípios: só as partes são reais e o todo não (niilismo mereológico, os tijolos de Lego versus o carro), e essa relação de dependência não tem fundo, desce para sempre, como o “gunk” infinitamente divisível de David Lewis.
- Introduz a doutrina das duas verdades: a convencional (o mundo como aparece a nós, onde o copo cai e quebra e a causalidade vale) e a última (onde não há causação nem natureza própria); não é ilusão contra realidade, ambas são verdades que operam em níveis diferentes.
- Discute se a estrutura sem fundo é “tartarugas até o fim” (dependência infinita para baixo) ou coerentismo ontológico (“volta em círculo”, A depende de B… depende de A, um círculo grande o bastante parece linha reta); a filosofia contemporânea da fundamentação mostra que nenhum dos modelos é logicamente contraditório.
- Alex objeta com a intuição tomista da série causal essencialmente ordenada (o copo na mesa, na mesa no chão, cada elo “empresta” poder causal e sem fundo tudo drena), usada como argumento pela existência de Deus; Westerhoff responde que Madhyamaka simplesmente rejeita essa concepção de causação como relação substancialmente real.
- A chave está na teoria budista do tempo: presentismo (só o presente existe), herdado da escola Sautrantika, que dissolve a causação porque um dos dois relata (causa passada ou efeito futuro) nunca é real, sendo suprido por memória ou antecipação, o que torna a causação dependente da mente, aproximando Nagarjuna de Kant (fenômeno/númeno, espaço e tempo como projeções).
- A grande diferença com Kant é o “vazio do vazio”: a própria teoria da vacuidade não é ultimamente verdadeira; Nagarjuna diz que quem transforma a vacuidade em tese metafísica está “além de qualquer esperança”, pois o Madhyamaka é tão convencionalmente real quanto qualquer outra teoria, não uma verdade final.
- O sentido é soteriológico, não teórico: o budismo é projeto para escapar do sofrimento (samsara), ligado ao não-eu (anatta), a ausência de um núcleo substancial da pessoa; agarrar-se a um eu, ou até a uma teoria como prova de que “eu estava certo”, é forma sutil de tanha que gera sofrimento.
- No fecho, Westerhoff distingue ter uma visão de ver o mundo por ela: só a “cultivação” (bhavana, meditação/treino), não o raciocínio, faz a vacuidade dissolver o sofrimento experiencialmente; Alex resiste tentando fundar sua metafísica na realidade inegável da consciência e do vermelho, e Westerhoff aponta que os Madhyamikas negam a mente como ultimamente real (contra os Yogacharas), porque qualquer coisa última vira objeto de apego.