Matheus Fugita e seu interlocutor assistem e demolem, trecho por trecho, um vídeo de Matheus Benites sobre Duns Escoto, sustentando que Benites erra em cadeia: inventa uma ponte entre Escoto e Descartes, atribui a Escoto a tese de que Deus está "na fronteira entre o ser e o não ser", confunde distinção modal com modalidade no sentido de contingência e inverte a força relativa dos realismos de Escoto e Tomás de Aquino.
talvez
o conteúdo positivo é real e útil (Escoto sobre infinitude, as três distinções, a origem da tese do meio-termo em Egídio Romano, a correção sobre quem é o realista forte), mas vem embalado em trinta minutos de reação e chacota, então vale mais ir às fontes citadas, Ordinatio e Tratado sobre o primeiro princípio, que voltar ao vídeo.
O que foi dito
- Abrem com o enquadramento comparativo que consideram correto: para Tomás de Aquino Deus se caracteriza sobretudo como ser e ato puro (atualiza sem ser atualizado, autoexistente, simples), para Escoto como infinito e para Ockham como liberdade, e estudar os medievais é estudá-los um à luz, ou à sombra, do outro.
- Leem o trecho de Giovanni Reale (História da Filosofia, vol. 1) sobre o argumento de Escoto: se as coisas são possíveis, é possível um ente primeiro; se fosse apenas possível não poderia existir, já que nenhum outro o produziria, logo existe em ato; e sua conotação própria é a infinitude, porque só o ser infinito é ser em sentido pleno, fundamento dos entes e antes ainda de sua possibilidade.
- Primeira crítica: Benites conclui daí uma ponte entre Escoto e Descartes porque ambos “partem de um princípio”, o que os dois tratam como critério vazio, já que Tomás parte do argumento do movimento e qualquer filósofo parte de algum princípio; Escoto simplesmente não é fundacionalista, e o fundacionalismo cartesiano é outra coisa.
- Desqualificam o atalho historiográfico do “primeiro filósofo moderno”: a filosofia moderna nasce de ruptura com o aristotelismo num processo gradual (aristotelismo eclético, depois mais desgarrado, depois teses originais), e Raimundo Lúlio foi mais influente na Renascença que Escoto, lido por Leibniz e comentado por Descartes em carta, sem que ninguém o chame de moderno.
- Advertem sobre a fonte: Reale serve como introdução, mas o livro tem muitos erros, e satirizam a linha do tempo providencialista que o público associa a esse tipo de leitura (Escoto, Ockham, Renascimento, Lutero, empirismo, marxismo, niilismo, “parada gay em São Paulo”).
- Núcleo da acusação: Benites diz que Deus, para Escoto, está “como que na fronteira entre o ser e o não ser”, e deriva isso da simplicidade divina; os dois respondem que nada em Reale sustenta a frase e que a tese tem outra origem, Egídio Romano, que no Hexaemeron põe a potência como meio-termo entre ser e não ser, exatamente o que Escoto nega, pois para ele não há meio-termo (a noção escotista de potência, depois reaproveitada por Suárez, é plenamente ser).
- Ampliam o panorama histórico da tese rejeitada: na escolástica protestante Alsted polemiza para dizer que a potência não é termo médio, e Campanella, da Renascença, desenvolve uma teoria do nada em que as coisas são compostas de ser e nada, mas Campanella chamava Aristóteles de idiota e não era escolástico, de modo que a atribuição a Escoto fica sem lastro; e nada disso é compatível com simplicidade, que não tem composição alguma.
- Concordam com Benites apenas num ponto exegético: no Ordinatio Escoto nega que Deus seja conhecido naturalmente pelo homem peregrino segundo a razão da essência divina em si, e isso Tomás também aceitaria (“sabemos que Deus é, não o que Deus é”), um dos poucos acordos metafísicos entre os dois.
- Avaliam a objeção própria de Benites aos argumentos de necessidade (necessidade só vale para abstratos como 2+2=4; e seria imaginável um mundo em que quarks ou um campo quântico são necessários e o copo, por determinismo, necessário por consequência, a necessitas ex conditione dos medievais): respondem que o raciocínio tornaria tudo necessário, que ter vindo a existir é justamente a marca da contingência, que Benites não mostra como Leibniz seria atingido, e sobretudo que ele imputa a Escoto petição de princípio, quando no Tratado sobre o primeiro princípio Escoto parte do possível e da teoria do factível para só ao fim chegar à necessidade de Deus.
- Erro que consideram o mais grosseiro: ao listar os tipos de distinção escotista (real entre Sócrates e Platão, formal entre inteligência e vontade, modal entre a luminosidade e seu grau), Benites explica “modal” como possibilidade, “poderia ou não poderia ser”, equivocando a palavra; distinção modal é a que há entre uma coisa e seu modo (o interlocutor dá o exemplo de si mesmo e de sua posição sentada), tida como distinção real menor, e nada tem a ver com contingência.
- Acrescentam dois erros correlatos: Benites põe no slide que a distinção formal “não é real” sem entender o que a intermediariedade significa ali, e diz que o realismo de Escoto é mais fraco que o de Tomás, quando tomistas do século XIX apelidavam o realismo escotista de “realismo exagerado” (em Tomás o domínio é meramente negativo, em Escoto há a teoria do formalismo).
- O tom é de deboche aberto, com riso, leitura de comentários do chat e observações sobre credencial (“ele é mestre ou doutor? estava fazendo doutorado em filosofia, para você ver que a academia aceita tudo”), além da piada sobre o efeito Dunning-Kruger e a comparação com Nogueira (grafia incerta), que confundiria formalidade com formas em Deus.