a tese
Continuação da reação à resposta de Gustavo Machado a Bertoche e Krepe, agora na parte propriamente metafísica, em que Ribeiro sustenta que Machado erra o alvo por não perceber que a objeção era metaontológica, sobre univocidade do ser, e não uma tese sobre redução do múltiplo ao uno em Aristóteles.
aprofundar
talvez
mas com alvo certo: o trecho sobre univocidade do ser e quantificação existencial é exatamente o terreno da disputa entre analogia tomista e univocidade escotista, e ver um materialista ser cobrado por pressupor univocidade rende para teologia filosófica.
O que foi dito
- Machado defende a leitura padrão de que Aristóteles, ao contrário de Platão, apreende o universal a partir do particular: o universal não é substância, não subsiste separado, existe nas coisas e por meio delas, e a ciência só é possível do universal, não do indivíduo tomado isoladamente.
- Ribeiro traduz isso para o vocabulário analítico como princípio de instanciação, lembrando que é posição viva na metafísica contemporânea, com David Armstrong tratando leis da natureza como relações entre universais aristotélicos instanciados.
- Ele acrescenta que a própria oposição Platão-Aristóteles é discutível, citando a interpretação de Lloyd Gerson, para quem as formas e os universais teriam papéis explanatórios distintos (o problema do um sobre muitos, de um lado, a possibilidade de predicação universal, de outro), e observa que Matheus Fugita e outros no Brasil defendem leitura parecida.
- O núcleo da crítica é que a objeção de Bertoche era metaontológica: a pergunta é se é possível predicar univocamente o ser tanto do princípio fundacional quanto do que dele depende, e Machado responde como se fosse uma tese sobre redução da multiplicidade.
- Daí Ribeiro tira o ponto mais interessante da live: o próprio materialismo imanentista de Machado depende de uma concepção univocista do ser, aquela em que existir é o que o quantificador existencial genérico captura, na linhagem de Frege, Russell e sobretudo Quine, e essa dependência não é examinada por ele.
- Ao ser perguntado no chat pela própria epistemologia, Ribeiro se declara conservador fenomênico e fundacionalista não clássico: crenças perceptuais, morais, introspectivas e mnemônicas são justificadas prima facie pelas aparências, salvo derrotadores, e nomeia Michael Huemer, Blake McAllister, Chris Tucker e outros da mesma família.
- Também repõe do lado dele a distinção metafilosófica da parte anterior, de que método adequado ao objeto não é patrimônio do marxismo, e insiste que Machado se move com excesso de confiança em terreno de metafísica analítica que não frequenta.
- A live é confessadamente improvisada: começa com duas ou três pessoas assistindo porque ele não programou a transmissão, e ele avisa que vai parar às duas e meia da manhã.
- O ritmo é o mesmo das outras: leitura de doações no meio dos argumentos, pausas técnicas e comentários sobre desafetos, com o material aproveitável concentrado na primeira meia hora.