a tese
Segunda parte da reação ao debate do Spectrum, agora sobre a tese de que o aborto é questão de saúde pública; Ribeiro e Sankey sustentam que o lado pró-escolha erra pelo motivo simétrico ao do lado pró-vida, ao tratar como neutro e meramente técnico um enquadramento que já pressupõe teses metafísicas e éticas não defendidas.
aprofundar
talvez
o trecho sobre razão pública e o problema de McNabb (argumento filosófico como ponte entre razão religiosa e política pública) é o que interessa de verdade a você, inclusive para pensar como um cristão argumenta na praça sem apelar à autoridade da revelação.
O que foi dito
- A crítica de abertura é que Thay Vasconcelos apoia a posição no parecer da Organização Mundial da Saúde em vez de argumentar: dado nenhum decide a questão sem um quadro ético prévio que diga o que se está tentando maximizar, menos abortos, mais autonomia da mulher ou proteção do feto.
- Sankey observa que a fala dela pressupõe um bem-estarismo, isto é, que a função do Estado é promover bem-estar, e que isso precisaria ser defendido, além de exigir uma teoria de identidade pessoal (continuidade psicológica, provavelmente) que também não foi apresentada.
- O paralelo é explícito: as pró-vida pressupõem alma infusa na concepção, as pró-escolha pressupõem uma metafísica secular, e nenhuma das duas duplas argumenta pela metafísica que usa, de modo que cada lado só convence quem já concordava.
- O bloco mais interessante é o de filosofia política: contra o apelo de que a fé das adversárias não deveria entrar na discussão, Ribeiro aciona o princípio de razão pública de Rawls e em seguida o problematiza com o volume de Tyler Dalton McNabb na série Cambridge Elements sobre Deus e teoria política, segundo o qual posições de origem religiosa podem ser justificadas por argumentos filosóficos publicamente acessíveis, o que embaralha a separação entre razões religiosas e seculares.
- Ele lembra que esse é um problema de quem aceita autoridade política e defende Estado laico, e não dele, que se declara anarquista filosófico e político, portanto não reconhece legitimidade ao Estado atual.
- Do lado empírico, discutem os números apresentados sobre mortalidade em abortos clandestinos comparados aos legais, e vão ao documento das Abortion Care Guidelines da OMS, lendo a passagem em que limites de idade gestacional aparecem associados a maior mortalidade materna e a impacto desproporcional sobre adolescentes, mulheres com deficiência cognitiva, de baixa escolaridade e sem recursos para viajar.
- Também aparece o argumento de direitos humanos internacionais citado no documento, o de que Estados devem reformar leis para prevenir aborto inseguro, e a leitura de que negar o procedimento por limite gestacional pode contrariar essa exigência.
- Do lado pró-vida, os argumentos reproduzidos seguem a linha da primeira parte, com adoção como alternativa, foco em políticas de prevenção e recusa das exceções hoje legais, incluindo estupro.
- Ribeiro repete os argumentos que considera decisivos e que faltaram ao lado pró-escolha: o princípio do futuro atual de Harman, o violinista de Judith Jarvis Thomson no artigo de 1971 com suas versões modificadas, e o experimento da clínica de fertilização em chamas.
- Como na parte anterior, a discussão é interrompida a todo momento por leitura de doações, travamentos e brincadeiras do chat, e são quase três horas para o material que caberia em uma.