a tese
Primeira parte da reação de David Ribeiro e Bruno Sankey ao debate do canal Spectrum entre a dupla pró-escolha (Thay e Michelle) e a dupla pró-vida (Roberta e Mariana), com a crítica central de que o lado pró-vida trata como dado aquilo que precisaria ser argumentado: que o embrião é pessoa desde a concepção.
aprofundar
talvez
a parte de metafísica da pessoa (identidade pessoal, potencialidade, Harman) é ética aplicada feita com a literatura na mão e serve de contraponto ao argumento pró-vida padrão, e a digressão sobre Lúlio e ocultamento divino é o que mais te toca de perto.
O que foi dito
- Sankey abre pelo vocabulário: “assassinato” é um conceito espesso, que já embute a conclusão moral, de modo que abrir o debate com essa palavra é assumir de saída a tese que se deveria provar.
- A distinção que organiza toda a discussão é entre vida biológica (qualquer organismo da espécie humana, inclusive gameta ou zigoto) e vida biográfica (a vida de um sujeito de experiências), e o ponto é que só a segunda dá base clara para status moral.
- Ribeiro sustenta que a posição pró-vida depende de uma teoria de identidade pessoal específica, seja um dualismo de substâncias com alma infusa na concepção, seja um hilomorfismo com a alma intelectiva informando a matéria, e que o ônus de defender essa metafísica é de quem a usa, ainda mais quando as debatedoras se apresentam em chave secular.
- Contra o argumento da potencialidade, mobiliza o princípio do futuro atual de Elizabeth Harman, no verbete sobre aborto da Stanford Encyclopedia: o que confere status moral é o futuro efetivo de uma pessoa atual, não a potencialidade de um feto que pode nunca se atualizar, como mostram os abortos espontâneos.
- Sobre o apelo ao batimento cardíaco, responde que ninguém mostrou por que a batida do coração seria propriedade moralmente relevante, em vez da capacidade de ter experiências avaliáveis em primeira pessoa.
- Perguntado sobre seus melhores argumentos, Ribeiro lista os de Harman, as versões modificadas do violinista de Thomson e o experimento mental da clínica de fertilização em chamas, que atribui ao artigo de Michael Sandel sobre implicações éticas da clonagem humana, além do verbete de Eric Olson sobre identidade pessoal.
- Do lado pró-vida, o argumento reproduzido no vídeo é sobretudo retórico e biográfico (a debatedora está grávida de sete meses e meio, ouve o coração da filha), com defesa da criminalização inclusive nos casos hoje permitidos, adoção como alternativa e pena de morte para o estuprador.
- Sankey e Ribeiro apontam também um erro factual da exposição pró-vida, a fala sobre “união do zigoto masculino com o zigoto feminino”, quando o correto seria gametas.
- Há uma digressão longa e valiosa a partir de uma pergunta paga do chat sobre a teoria dos correlativos de Raimundo Lúlio contra o argumento do ocultamento divino de Schellenberg: os dois sustentam que uma bondade essencialmente comunicativa, como a de Lúlio, tende a piorar o problema, porque faria esperar mais comunicação divina do que se observa.
- Dessa digressão sai a melhor tese metodológica da live: alegar que Tomás, Escoto ou Lúlio “já refutaram” um argumento contemporâneo só vale depois de traduzir aquele argumento para o vocabulário analítico atual e enfrentar as objeções publicadas.
- O formato é de reação ao vivo com transmissão instável, leitura de doações no meio dos argumentos e piadas do chat, o que dilui bastante as duas horas e meia.